“A comunicação social está refém dos anunciantes”

A jornalista brasileira Giuliana Miranda considera que a concorrência é saudável para o jornalismo, mas receia que a concentração do monopólio ameace a isenção jornalística.

Entre os vários temas abordados na entrevista, de salientar a disseminação das fake news e a fraca representatividade das mulheres nos órgãos de comunicação social.

Na perspectiva de correspondente estrangeira, que diagnóstico faz da comunicação social em Portugal?

Portugal é um país com uma grande vontade de ter uma comunicação social forte e com credibilidade. Todos os barómetros indicam que a televisão, no caso português, é o meio com maior credibilidade, o que é um excelente indicador. Porém, no caso dos jornais, seria desejável que o cidadão tivesse uma boa imagem da imprensa. Comparativamente ao Brasil, cuja comunicação social está fortemente minada por fake news, observo que Portugal tem um estado de arte diferente. Todavia, o que consigo ver como jornalista estrangeira é que os media cá estão muito concentrados em grandes grupos; há uma tendência cada vez maior de centralização em poucas empresas.

Depois, vejo os jornais impressos a agonizar, embora, naturalmente, esta não seja uma situação que se circunscreva a um país; é um problema global. Mas aqui, especificamente, com cinco grandes anunciantes a deterem a maior parte do bolo publicitário, observo uma comunicação social refém desses anunciantes para se conseguir manter. E, obviamente, é muito delicado ter a sobrevivência garantida por este domínio.
Acho que isso deveria ser um motivo de alerta.

Em termos de isenção, que implicação é que essa concentração de poder pode ter?

Quanto mais concorrência, mais saudável é o jornalismo.

A tendência para concentrar todas as esferas — jornais, televisão, rádio — em poucos grupos, são apenas três ou quatro, é muito prejudicial para a isenção jornalística. E isso tem graves repercussões para a saúde do sector.

Não quero com isto dizer que é inviável um modelo competitivo, ou que isso gere necessariamente um jornalismo enviesado, mas é mais fácil sucumbir à tentação de atender a interesses económicos ou empresariais no quadro desta situação específica.

Um dos temas centrais no jornalismo actual é se o Estado deve financiar os media privados. Qual é a sua posição?

A comunicação social tem um papel preponderante enquanto guardiã da democracia e estamos num momento em que é muito evidente que os media estão a agonizar por questões económicas. Basta observar as tiragens dos jornais e revistas, cada vez mais baixas, e os meios online, que eram supostamente a grande aposta para a salvação do jornalismo, não conseguiram «A comunicação social tem um papel preponderante enquanto guardiã da democracia.» Sandra Gonçalves Rafael G. Antunesacompanhar a realidade.

Actualmente, temos o Google e o Facebook com 70% das receitas de publicidade online. E os órgãos de comunicação social não conseguiram traduzir a perda de tiragem impressa, física, em receitas com publicidade online. É crucial haver incentivos. Agora, é importante que o Governo estude os moldes desses incentivos. É preciso estar muito atento a esta questão.

No caso da América do Sul, uma vez que não produz papel de jornal, é comum, e isto -se num instrumento de controlo. Ou seja, é urgente reflectir sobre as implicações que podem ter na isenção jornalística. O ideal seria um sistema que não passasse necessariamente pela injecção de recursos financeiros, mas sim, talvez, por programas que incentivassem a literacia dos media, que estimulassem a participação democrática.

Se o Governo português decidir avançar com essa opção, é preciso estar muito atento para que esses incentivos não comprometam o resultado final.

E quanto ao serviço público, faz sentido continuarmos a pagar a taxa de audiovisual?

Leia a notícia completa na edição impressa do Dia 15, disponível nas bancas e aqui.

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