A descentralização de tudo

A revolução será descentralizada. Este tem sido o “grito de guerra” entre os primeiros adeptos da tecnologia desde que o bitcoin explodiu na consciência dominante no início de 2013, e é o princípio orientador para aqueles que constroem a “Web 3.0”, a próxima geração de serviços que pretende usar os “insights” tecnológicos subjacentes à natureza descentralizada e de código aberto.

Com a rápida proliferação de plataformas e aplicações descentralizadas — poder de computação (Ethereum), armazenamento (Filecoin), trocas de activos (Protocolo 0x, Airswap), meios de comunicação (Numa, Peepeth), partilha de salas (CryptoCribs) e mais, os novos serviços prometem capacitar os indivíduos a possuírem os seus próprios dados, trocar com confiança com terceiros sem um intermediário “confiável” e participar de uma rede resiliente menos susceptível a “hackers”, censura e notícias falsas.

Mas esta revolução não se limita aos serviços da web. Dois dos maiores sub-sectores da economia, geração e transmissão de energia e produção e distribuição de alimentos, estão prontos para uma revolução descentralizada. Em todo o mundo, os produtos e serviços estão a começar a surgir (e a chegar ao mercado), tendo já infra-estruturas que permitam que cresçam exponencialmente na próxima década.

A Tesla, Power Ledger e LO3 Energy lideram um conjunto de empresas que trabalham para levar essa revolução da descentralização à energia eléctrica que alimenta as nossas casas e carros através do desenvolvimento de sistemas onde a energia é gerada, comercializada e consumida já na nossa vizinhança.

Já a Square Roots, Bright Farms e Plenty estão a construir um futuro no qual a maioria das frutas e legumes que consumimos são colhidas pelo agricultor local, poucas horas antes do consumo.

Pode soar a um retorno a uma era pré-globalização, em que tudo era local, por necessidade, mas o movimento de descentralização promete alavancar a tecnologia para prover todos os benefícios de ser local (e há muitos), enquanto supera os sistemas industriais centralizados que foram construídos ao longo dos últimos 100 anos na métrica mais importante para um novo sistema para alcançar o desejado: o lucro.

Descentralização versus Centralização

A descentralização, quase por definição, é ineficiente em comparação com a centralização quando medida em termos dos recursos necessários para produzir uma unidade desejada de produto. Como a revolução industrial deixou bem claro nos últimos 250 anos, as economias de escala são reais; vimos mercados fragmentados a sucumbirem a ondas de consolidação na tentativa de alcançar economias de escala cada vez maiores. É por isso que quase todas as indústrias maduras são dominadas por não mais de cinco a 10 empresas, que controlam uma pluralidade ou a maioria da participação de mercado.

No mundo de hoje, o poder e os lucros continuam a crescer para empresas e plataformas centralizadas, mas o principal impulsionador do crescimento da produtividade já não é a economia de escala, mas sim a desvinculação de novos valores, tornando os sistemas existentes mais inteligentes através do uso de software e uma estreita ligação com a Inteligência Artificial. A maior característica do software é que, uma vez desenvolvido, é infinitamente escalável com custos marginais efectivamente nulos e pode ser continuamente repetido e aprimorado sem custos significativos.

É por isso que o software e as indústrias baseadas na Internet são ainda mais concentradas do que o sector tradicional: pequenos grupos de pessoas podem construir produtos acessíveis para milhares de milhões de pessoas e estabelecer o domínio da indústria através de poderosos efeitos de rede, criando produtos e serviços mais centralizados do que nunca.

O fracasso dos sistemas centralizados

As empresas centralizadas criaram um valor incrível para os utilizadores e accionistas, mas a sociedade, como um todo, precisa de considerar não apenas o lado positivo, mas também o lado negativo da centralização.

Serviços da Web – maior vulnerabilidade a interrupções generalizadas de serviços críticos com o “hack” de uma única empresa; a influência descomunal de um número selecto de algoritmos que influenciam o nosso fluxo de informação; a perda de privacidade na nossa vida digital.

Geração e transmissão eléctrica – a geração centralizada favorece materiais “densos” em energia, como o carvão e o gás natural, que não são renováveis; longas linhas de transmissão a partir de locais de geração centralizada aumentam as probabilidades de interrupções de serviço (por exemplo, de tempestades que deitam abaixo linhas de energia); a distância entre o produtor de energia e o consumidor de energia mascara os verdadeiros custos associados à produção desta energia e reduz a probabilidade de os consumidores se preocuparem com a sua proveniência.

Produção e distribuição de alimentos – o sistema alimentar industrial incentiva a produção de monoculturas que reduzem a biodiversidade e aumentam a necessidade de pesticidas poluentes e fertilizantes inorgânicos; uma cadeia de abastecimento global faz com que as frutas sejam colhidas antes de amadurecerem, e enviadas para todo o mundo em contentores refrigerados — quase tudo é amadurecido à força com etileno antes de ser colocado nas prateleiras; a população urbana global está desconectada dos agricultores que cultivam os seus alimentos, e as “soluções” (mercados de agricultores, o movimento “do campo à mesa”) são insustentáveis em escala ou acessíveis apenas aos mais ricos.

Historicamente, os sistemas descentralizados têm sido demasiado caros para sustentar a população em grande escala. Mas, aproveitando o software actual e a inteligência artificial, podem actuar ao mesmo nível dos sistemas centralizados mais eficientes, que foram construídos para obter economias de escala, reduzindo, ou eliminando, as externalidades negativas que os afligem.

Não são apenas mais resistentes do que os sistemas centralizados, mas também geralmente mais simples (sem infra-estruturas de cadeias de abastecimento complicadas) e podem responder melhor às mudanças nas condições de mercado, por estarem mais próximos do consumidor final.

Existem grandes vantagens sociais se os sistemas descentralizados puderem florescer em escala. Este tipo de “arquitectura modular”, com múltiplos autónomos a operar em paralelo, é mais seguro do que um sistema centralizado; pelo menos tem menos pontos de falha.

E torna a rede mais “verde”, mais confiável e resiliente. Uma infra-estrutura organizada em torno de micro-redes abrirá novas oportunidades para os consumidores, dando-lhes maior liberdade de escolha.

Resta saber se o público está interessado em soluções de energia descentralizadas, como as que a Power Ledger está a tentar construir através da tecnologia “blockchain”.

Sabemos há muito que existem custos associados à centralização, mas até recentemente não conseguíamos perspectivar uma alternativa viável que pudesse ser dimensionada para atender às necessidades da população mundial de forma conveniente e sustentável.

Mas, actualmente, há alternativas exequíveis. Podemos reduzir a nossa dependência e, talvez, construir um mundo em que possamos voltar a estar ligados à proveniência dos nossos recursos vitais e, em consequência disso, apostar num mundo mais resiliente e sustentável.

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