«A esquerda só existe porque há pobres»

Entrevista a Álvaro Covões, director da Everything Is New.

Álvaro Covões, director da Everything Is New, fala sem medo e sem filtros. É crítico do status quo que impera na cultura por vontade política e afirma que os privados não investem mais porque a concorrência é desleal – «90% dos teatros são do Estado e subsidiados». Mas vai mais longe. «Ao controlar a oferta cultural, controla-se a opinião do povo».

 

Há umas semanas citou Mario Vargas Llosa: “Algo anda mal na cultura de um país se os seus artistas, em lugar de se proporem mudar o mundo e revo­lucionar a vida, se empenham em alcançar protecção e subsídios do Governo”. É esta a cultura que temos em Portugal?

Não são só subsídios à Cultura, é o país inteiro. Este é um país em que as pessoas têm medo de falar e que, em vez de falarem e darem ideias e contrariarem a vontade política, andam de mão estendida e são subservientes ao poder. Mas em todos os sectores.

 

Por que é que isso acontece?

A política é um jogo de interes­ses para ver quem manda mais, se são os políticos ou o povo. Em Portugal venceram os polí­ticos. O povo tem medo. Podem dizer que o povo faz manifesta­ções e greves, mas quem faz são os funcionários públicos, não são os privados. Quando estão protegidos por partidos é outra conversa., como os professores. Aliás, até são representados por profissionais que há décadas não dão aulas. Se na política há limitação de mandatos, também devia haver no associativismo. Mas não convém, não interessa. Na realidade, as greves são feitas por sindicatos fortes. Um tra­balhador quando está em greve não recebe salário e os sindica­tos complementam o salário do trabalhador ou não? Quais são os sindicatos que têm poder e onde é que foram buscar as receitas? O associativismo, seja patronal ou sindical, é alimentado por sub­sídios do Estado e isso é que está errado. É uma forma de contro­lar. Isto em relação aos fortes, não aos pequenos. Estou no as­sociativismo e não é alimenta­do pelo Estado, mas depois não temos poder nem dinheiro para nada, porque o país não tem di­mensão. É perverso.

 

Regressando à cultura, o que é que está mal?

Tudo. Não sei se de propósito ou sem querer, aquilo que Salazar não conseguiu, conseguiu a 3ª República. Sem censura aparen­te, conseguiu desinteressar as pessoas da cultura. Há várias ex­plicações. Desde o 25 de Abril não se constrói um teatro privado em Portugal, porque não é negócio.

 

Não é negócio porquê?

Porque não interessa ao Esta­do, que assim controla a oferta cultural. Controlando a oferta cultural controla-se a opinião do povo.

 

Por que é que os privados não se juntam e mudam esse status quo?

Porque não facturam. A concor­rência é desleal, porque os tea­tros do Estado são subsidiados. Hoje, 90% dos teatros são públi­cos. Mas se olharmos para 1974, por exemplo numa cidade como Lisboa, 90% dos teatros eram privados. Só que já não existem. Quando olhamos para a cidade de Lisboa, o Condes é um restau­rante, o Éden é um hotel, o Cine­ma Paris vai ser a entrada de um condomínio de luxo e por aí fora. Aliás, Lisboa deve ser a única ca­pital da Europa que não tem um cinema clássico no activo. Temos menos de dez teatros em Lisboa.

 

O Estado devia sair da Cultura e entregá-la aos privados?

Não. O Estado tem um papel im­portantíssimo na cultura, não pode é fazer concorrência desleal nem condicionar a oferta cul­tural. O que é o Portugal do séc. XXI, quase em 2019? É um país em que as pessoas não ques­tionam nada, ao contrário, por exemplo, dos franceses. Vimos agora em França a classe média revoltar-se contra o aumento da gasolina. E não é o que vem nos jornais. É mesmo a classe média que está revoltada contra um au­mento sucessivo de impostos e uma desresponsabilização cada vez maior dos gastos públicos. Porque os políticos sentem-se no direito de não justificar nada, mas é o nosso dinheiro.

 

Os portugueses estão desligados da política?

Nem votam. A abstenção está na ordem dos 50%. Metade dos por­tugueses não quer saber da polí­tica. É muito estranho porque não estamos a perceber o que se está a passar no mundo. Assisti a uma série de pessoas a criticar o Bolso­naro no Brasil como se fossemos superiores aos brasileiros. Se os brasileiros decidiram democra­ticamente escolher o Bolsona­ro, só tínhamos que o respeitar. Podemos, obviamente, ter opi­niões sobre se algum discurso é mais contrário à democracia ou não, mas temos que respeitar a vontade dos brasileiros. Até fi­quei admirado com a esquerda portuguesa. Já nem sei quem é o colonialista, se a direita, se a es­querda, porque a esquerda é que achava que o Bolsonaro estava er­rado no Brasil, mas se o povo es­colheu livremente… Vim agora do Brasil e as pessoas estão com uma expectativa gigantesca no Bolso­naro. Estão com esperança. O Bol­sonaro ganhou, ganhou o Trump, na Áustria ganhou quem ganhou, na Hungria idem, a extrema-di­reita conseguiu 12 deputados na Andaluzia. Ainda ninguém perce­beu o que se está a passar?

 

São votos de protesto?

Não, é a falência da democracia tradicional. Temos um proble­ma em Portugal e na Europa. A esquerda só existe porque há pobres. Sem pobreza, a esquerda não tem votos. Ultimamente te­nho pensado se não é a esquerda e a extrema-esquerda que, sem querer, para se perpetuarem no poder, mantêm o país pobre, porque isto não faz sentido ne­nhum. Estamos na Europa co­munitária, no espaço único eu­ropeu, mas se compararmos os custos de contexto de Portugal com Espanha, percebemos que as empresas portuguesas não têm a mínima hipótese de con­correr com os espanhóis, o que quer dizer que não têm a mínima hipótese de crescer. Os impos­tos que os trabalhadores pagam são muito superiores, os impos­tos que as empresas pagam são muito superiores e, portanto, a concorrência é completamente desleal no espaço único europeu. A esquerda alimenta isto e isto alimenta a pobreza e quando se alimenta a pobreza, alimenta­-se a perpetuação no poder. Por isso é que têm a votação que têm. Basta pensar só cinco minutos para perceber que se as pessoas vivessem melhor não votariam na esquerda.

 

É propositado ou sem querer?

Não faço ideia. Diz-se, em Por­tugal, que as empresas e os empresários são malandros e o Estado é que é porreiro, o que equilibra. Os impostos são cada vez maiores e dizem que os mais ricos têm de pagar impos­tos para redistribuir a riqueza, mas os pobres continuam po­bres. Ao fim de 45 anos, a re­distribuição não deu tão certo como se pensava. Claro que alguém vai dizer que o nível de vida das pessoas melhorou. Mas melhorou aqui, na China, em África, em todo o lado. Não foi só aqui, pelas políticas por­tuguesas. Isto faz parte da ci­vilização humana. Mas ao nível de hoje, os pobres continuam a ser pobres. A redistribuição, se calhar, não existiu. Mas as pessoas pagam cada vez mais impostos. Isto faz com que os portugueses que teriam mais capacidade – se não pagassem tantos impostos – de criar ri­queza e de investir, deixam de o poder fazer. Se deixam de poder investir, deixa de haver cres­cimento económico, e se não houver crescimento econó­mico não há riqueza. Estamos a seguir o caminho contrário àquilo que seria normal para crescer. Por isso é que devía­mos estar atentos, principal­mente os partidos e as pessoas que estão na política. A Andalu­zia é aqui ao lado, a Áustria, a Hungria, a França…

 

A extrema-direita está a ganhar terreno rapidamente…

Da mesma forma que a extre­ma-esquerda ganhou terreno para combater a extrema-di­reita que estava no poder. A es­querda tem estado no poder e falhou. Este é um projecto falha­do. A Europa de esquerda falhou completamente. Os Estados que criámos absorvem cada vez mais impostos. Pagamos para fazer tudo. Todos os anos se cria um imposto novo.

 

Temos um problema de priori­dades no investimento? Não se investe, por exemplo, ao nível da formação nas artes, na cultura. Os conservatórios estão degradados…

Se a escola funcionasse, as pes­soas interessavam-se pela cul­tura e evoluíam. O que é que faz um povo culto? Questiona. Não sei se é de propósito ou se é in­competência – às vezes acho que é de propósito. Temos um povo que não questiona. O presidente da China visitou agora Portugal e valeu tudo. Fecharam-se ruas, fizeram-se investimentos, mas depois para a escola não há di­nheiro. Não faz sentido nenhum. Se nos perguntarmos quantos artistas com menos de 40 anos têm carreira internacional, pen­samos na Carminho, na Mariza, Ana Moura e pouco mais.

 

O que é que o Estado fez por isso?

Quase nada. Os artistas que têm carreira internacional vêm da sociedade civil. O Estado falhou completamente. As políticas culturais falharam. O ensino unificado falhou. Não somos todos iguais e quando olhamos para o mundo do futebol vemos isso. A sociedade civil criou, há cerca de 20 anos, escolinhas de futebol no país inteiro. A partir daí, a própria sociedade foi-se organizando. Os melhores iam para a equipa da escola e não pagavam, o que era logo um in­centivo. Depois, os clubes inter­médios iam buscar os melhores dos melhores. Depois os grandes iam buscar os melhores dos me­lhores e criámos estes jogadores de futebol que são conhecidos no mundo inteiro. Então e nin­guém aprendeu com isto? Por que é que não fazemos o mesmo com a música, com o teatro, com a pintura? Temos os mesmos conservatórios que tínhamos em 1974. Devíamos ter dez vezes mais. Na cultura não melhorou nada. Temos menos teatros em Lisboa e no Porto do que há 45 anos. E porque é que não temos? Porque um povo culto questiona e é preferível ter um povo que não questiona.

 

É por isso que não temos hábitos culturais?

A Comissão Europeia fez um estudo sobre hábitos culturais em 2013 e Portugal foi o último. Quando se perguntou aos por­tugueses se leram, pelo menos, um livro nos últimos 12 meses, 40% disseram que sim. No re­latório do INE, de 2016, sobre a cultura, 36,5% disseram que leram um. Ou seja, continuamos a cair. No estudo da Comissão Europeia fomos os últimos na leitura de livros, só 19% assis­tiram a um concerto de mú­sica, só 13% assistiram a uma peça de teatro. Na ópera, ballet e dança, 8%. Falhanço total nos hábitos culturais.

 

É uma questão de preço ou tem a ver com a criação de públicos?

Ninguém fala em hábitos cultu­rais nem na criação de públicos. Ninguém. Falam em emprego. Quando foi a discussão do apoio à criação cultural, uma actriz disse “nós também pagamos renda”. Renda pagam todos e o Estado não tem de pagar a renda das pessoas. As pessoas têm de ter um trabalho que lhes garanta o pagamento da renda, porque senão era uma injustiça para todos os outros. Mas foi muito interessante essa discussão por­que ninguém falou da usufrui­ção. O que é que adianta apoiar a criação cultural se penaliza­mos a usufruição? O Estado está obrigado, em conjunto com os agentes culturais, a fazer che­gar a cultura a toda a gente, sem excepção. E é obrigado a corrigir as assimetrias. Porque é que o preço é um tema fundamental? Quando olhamos para os núme­ros do INE, venderam-se, em 2016, 4,9 milhões de bilhetes para espectáculos ao vivo, o que inclui dança, teatro, festivais, música, ballet, circo, tudo. Isto quer dizer que cada português só compra um bilhete para um espectáculo ao vivo de dois em dois anos. Depois, quando olha­mos para as receitas, dizem que as resultantes destes 4,9 mi­lhões de espectadores foram 85 milhões de euros, ou seja, cada português só gasta 8,20 euros por ano em espectáculos. Isto é uma tragédia. Temos hábitos culturais abaixo dos mínimos.

 

Porque é que foi importante esta questão da descida do IVA para 6% nos espectáculos ao vivo?

Porque quando comparamos a estatística de 2016, os portugue­ses foram três vezes mais ao ci­nema do que aos espectáculos ao vivo. Não creio que os portugue­ses gostem mais de cinema do que de espectáculos ao vivo. Mas depois vemos que o preço médio do cinema foi de cinco euros e o dos espectáculos 17 euros. Havia claramente a questão preço. De­pois temos outras, como a cria­ção de públicos, educação…

 

E vai reflectir-se na descida de preço dos bilhetes ou em lucro para os promotores?

No preço dos bilhetes, cla­ro. Portugal tem um problema muito grave que é não acreditar nos empresários e os portugue­ses têm de perceber que o país só existe porque há empresas e empresários. O Estado não cria riqueza. Quem paga a conta é o sector privado. Os funcioná­rios públicos dizem que tam­bém pagam impostos, mas não. Recebem um salário do Estado e devolvem algum. A criação de rendimento para o Estado do funcionário público é negativa, porque contribui com menos do que aquilo que recebe. Quem cria isto são os privados. De uma vez por todas, temos de come­çar a acreditar nos empresários. Se estudarmos o sector da cul­tura, o maior agente cultural é o Estado português, não são os promotores. Nós vamos receber o mesmo porque o preço a que vendemos vai ser o mesmo, as pessoas vão pagar menos porque o imposto que é adicionado ao preço vai ser menor.

 

Da edição n.º 8 do DIA15

 

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