A ida mais longa

A bordo do 750, o autocarro da Carris que percorre o caminho mais longo em Lisboa, entre a Gare do Oriente e o Mercado de Algés. Trinta e oito estações que integram três concelhos. Mais de uma hora de trajecto nos dois sentidos, com 11 minutos de intervalo – se não houver avarias.

«O dia mais quente de sempre foi a 4 de Agosto. Diz que atingiu os 44 graus.» Conversa de circunstância entre duas senhoras, passa pouco das sete da manhã, enquanto aguardam numa paragem da Avenida do Brasil o veículo da Carris que as transportará na direcção de Algés. Os pombos ensaiam os primeiros voos matutinos, o sol ainda é só uma promessa, não há como a meteorologia para desbloquear conversas. Mas o diálogo, desta vez, será curto: está a chegar o 750. Com letras grandes, luminosas, por cima do pára-brisas. Para que os mais velhos e míopes de todas as idades não se equivoquem.

Lisboa, Amadora, Oeiras
Mais de uma hora de trajecto, circulando por três concelhos – Lisboa, Amadora e Oeiras. Este é o autocarro que faz o mais longo percurso regular na capital portuguesa. São pelo menos 18 km, com início junto à pomposamente designada “Gare ntermodal do Oriente”, na Avenida de Berlim, e destino junto ao Mercado de Algés. Nos períodos mais movimentados, no chamado “horário de Inverno”, há intervalos de 11 minutos entre cada carreira. Mas por vezes ocorrem supressões sem pré-aviso, duplicando o tempo de espera e multiplicando as demonstrações de impaciência daqueles que não podem dar-se ao luxo de chegar atrasados aos empregos, às aulas, às consultas, às ligações a vias férreas nos dois extremos da linha.

As avarias são frequentes, as reparações dos veículos são demoradas. Sucedem-se as reclamações à Provedoria do Cliente da Carris, que desde 2017 se encontra sob alçada municipal. Incumprimento de horários figura no topo das queixas.

«Os problemas colocados na reclamação são também resultado de diversas interferências externas de que se destacam as obras que decorrem em inúmeros locais da cidade, avarias, acidentes, condições adversas de circulação, etc., que condicionam substancialmente a operação da Carris, sobretudo nas horas de ponta da manhã e da tarde. Pese embora o acima exposto a Carris, e no que é da sua responsabilidade, tudo está a fazer para ultrapassar as dificuldades com que se debate, diariamente, para a prossecução do seu serviço de transportes, em concreto através da contratação de novos motoristas, alguns já a desempenhar funções.» Assim se pronunciou a provedoria, em resposta a uma reclamação, conforme se lê na página oficial da empresa.

A rodar desde 1966
O “cinquenta”, como é popularmente conhecido desde que esta linha foi inaugurada, em 1966 (passou a ser 750 em 2006), transporta largos milhares de passageiros por dia. Com espaço para 46 sentados e 107 em pé. Às horas de ponta, em regra, segue à pinha. Viajei nele, em dias consecutivos, na primeira semana de Setembro, percorrendo as duas direcções. Um pouco mais demorado, o trajecto Oriente-Algés: uma hora e seis minutos. O percurso inverso, que durou menos três minutos, beneficiou de um troço percorrido a maior velocidade, sem semáforos, na CRIL (Circular Regional Interior de Lisboa), até à saída, com Alfragide ali à esquerda e a mancha verde de Monsanto a impor-se na margem direita.

– Então, já vem com a língua de fora?
– Há uma semaninha que cheguei de férias. Estes dias custam-me sempre mais.
As mulheres são assim, mais faladoras. Algumas conhecem-se apenas destas viagens matutinas. Há maioria feminina a bordo. Sempre que podem, elas optam pela dianteira do veículo, onde existem 15 lugares sentados – as senhoras com mais idade, de mobilidade condicionada por achaques diversos, posicionam-se perto da porta de saída. Os homens preferem a retaguarda e são de poucas falas, excepto quando alguma peripécia relacionada com o futebol consegue quebrar o gelo. Escuta-se português em sotaques vários, também algum crioulo. Há peles de diversas tonalidades: eis uma amostra viva da Lisboa multi-étnica.

Quase todos possuem passe social: raros passageiros adquirem bilhete a bordo, estendendo notas ou moedas ao motorista, encarregado dos trocos. Cada trajecto pago nesta modalidade custa 1,85 euros, segundo o tarifário de 2018. Mais barato, apesar de tudo, do que uma voltinha de eléctrico (2,90 euros) ou uma subida nos elevadores da Bica, Glória e Lavra (3,70 euros, embora este preço inclua a descida). No topo da lista está o turístico elevador de Santa Justa (5,15 euros, custo do sobe e desce).

Brandos costumes
O inconfundível amarelo da Carris, com um fole ao meio, percorre 38 estações neste circuito. Pára em quase todas, recolhendo ou libertando passageiros. Quem chega, muitas vezes, diz «bom dia» ao condutor – prova inequívoca de que Portugal, apesar de tudo, continua a ser país de brandos costumes.

Os frequentadores habituais, mais rotinados, vão espreitando com antecedência quem está prestes a sair: os que seguem ainda em pé aproveitam para ocupar um lugar sentado entretanto vago, os que seguem em bancos corridos transferem-se para os assentos individuais. A experiência conta muito nestas coisas.
Alguém com mais idade denota por vezes dificuldade em entrar ou sair, mas não faltam braços a ajudar.

À noite, garante quem sabe, estas deslocações são menos amenas. A partir das 22 horas, com as viagens mais espaçadas, torna-se provável a presença de desordeiros. Viajam sem título de transporte, com aparelhagem em altos berros, estendem os pés nos assentos da frente, mostram-se agressivos para os restantes passageiros, proferindo insultos e ameaças, e chegam a envolver-se em rixas. Alto da Damaia, Buraca, bairro do Zambujal e bairro da Boavista costumam ser as zonas mais problemáticas. Exigindo a presença a bordo de agentes policiais, para segurança do próprio condutor do autocarro.

Eles e elas
– Venha cá, para o pé da madame – atira uma senhora de meia idade a uma vizinha recém-chegada. Desatam a tricotar impressões sobre a saúde, a família, a vida. Com uma desenvoltura que raras vezes os homens demonstram, ainda por cima em espaços públicos.

As mais jovens, pelo contrário, pouco falam: viajam o tempo todo de auriculares, alheadas do meio circundante. Uma estudante de Direito transporta um exemplar do Código Penal, que de edição em edição parece cada vez mais volumoso. Uma forasteira solitária não despega os olhos do livro que traz aberto.

Cai um semáforo. Chega-se uma ardina brasileira, de largo sorriso no rosto: entrega o “Destak” ao motorista, que logo o põe de parte, sem espreitar sequer a manchete deste diário gratuito. Sinal dos tempos: ninguém lê um jornal. Algo impensável, num cenário semelhante, há meia dúzia de anos.

Pára-arranca
O veículo roda, a velocidade lenta mas constante, sem congestionamentos de tráfego – talvez por ser ainda semana de férias escolares. Em manhãs de engarrafamento na Segunda Circular, o pára-arranca pode tornar-se exasperante, sobretudo no troço de quase 3 km entre o Calhariz e o hipódromo do Campo Grande. Se há obras em curso, o que é muito frequente, o tempo de espera acentua-se. Impunha-se aqui um corredor exclusivo para transportes públicos, inovação que vai tardando, apesar de todas as promessas feitas por candidatos a candidatos autárquicos dos mais diversos matizes políticos.

Cabo Ruivo, Rotunda do Aeroporto, Campo Grande, Segunda Circular, Colégio Militar, Estrada de Benfica, Buraca, Miraflores. Entramos na Avenida dos Bombeiros Voluntários, com um vasto parque urbano a pintá-la de verde. Pouco adiante, a estação rodoviária de Algés.

Não tarda muito, faz-se inversão de marcha. Parque de campismo de Monsanto, Boavista, estádio Pina Manique, sede da Rádio Renascença, bairro de Santa Cruz, Avenida Gomes Pereira, estádio da Luz, centro comercial Colombo, Torres de Lisboa, estádio José Alvalade.

Dia de sorte: a Segunda Circular outra vez sem engarrafamentos. Daí a minutos, viramos para a Avenida Marechal Gomes da Costa, passamos pelo edifício da RTP – eis que o Parque das Nações já se vislumbra lá ao fundo. Fim da linha.

As vizinhas tinham-se despedido umas quantas paragens atrás:
– Vá pensando no almocinho, para animar.
– Vou, pois. Até amanhã.

 

Do especial Transportes da edição nº 5 do Dia 15

Mais Notícias
Comentários