A portuguesa que desafia os cânones na Califórnia

Se atentarmos ao número de “sommeliers” ou viticultores em todo o mundo, a indústria do vinho continua a ser, sem reticências, dominada por homens. Mesmo hoje, apenas 10% dos produtores de vinho das mais de 3.400 propriedades vitícolas da Califórnia são mulheres.

E é aqui que entra a portuguesa Ana Diogo-Draper, enóloga que está a dar muito que falar no condado de Napa. Directora de vinificação da Artesa Winery, chegou em 2004 àquele condado para trabalhar nas vindimas. Ana é formada em Enologia pela Universidade de Évora. Apesar de a sua família não ter vínculos com a área do vinho, sempre teve muita curiosidade em relação à produção, sobretudo o processo de fermentação. Uma coisa era certa, queria estudar e trabalhar na agricultura. Foi então, na universidade, que teve o seu momento “aha”, ao ficar fascinada com todo o processo criativo que envolve a produção de uma garrafa de vinho.

A viticultura, a génese da enologia
Ana Diogo-Draper queria muito aprender novas técnicas e abordagens enológicas. E a escolha recaiu em Napa, não só por ser uma das principais zonas vitícolas do Novo Mundo, mas também pela curiosidade de conhecer melhor a Califórnia. «A experiência foi incrível», afirma. Ficou fascinada com a forma como abordam e pensam o processo de fermentação, com muito respeito pelo “terroir”, pela qualidade das uvas, mas também com a grande curiosidade pela experimentação, combinando métodos ancestrais com a tecnologia. E aprendeu muito também na área da viticultura, «a génese da enologia», segundo Ana. Além disso, apaixonou-se pela Califórnia; ali encontrou o seu “canto no mundo”, com a sua beleza natural, e, acima de tudo, pelas oportunidades que ali existem. «Se tivermos talento e determinação, tudo é possível!»

A indústria do vinho está longe de ser paritária
O facto de trabalhar directamente com enólogas que estavam à frente das suas adegas também exerceu uma grande influência, especialmente vinda de Portugal, «onde não existiam as mesmas oportunidades para mulheres, a não ser que se nascesse dentro do mundo dos vinhos». Foi para ficar.

Ana Diogo-Draper vê esta actividade ainda muito longe de ser paritária, particularmente em posições de liderança. «Ser uma mulher no mundo dos vinhos é como ser uma mulher em muitas outras indústrias dominadas por homens. Muitas vezes, temos de trabalhar o dobro para provar que merecemos a responsabilidade que nos está a ser dada», afirma com firmeza. Vingar, segundo ela, só com muita paixão e dedicação, e uma valente dose de auto- -estima. «Não peço desculpa por ser como sou — perfeccionista, ambiciosa e determinada, mas tento manter-me humilde e nunca me esqueço das minhas origens», acentuou. E no final do dia, «a garrafa de vinho que apresentamos fala por nós, independentemente do nosso género.»

A sua paixão deve-a ao enólogo Paulo Laureano, «pela forma contagiante como ensina e como aborda e entrecruza as novas tecnologias com os métodos tradicionais portugueses», particularmente os alentejanos. E também à sua nova família americana, que “ganhou” com o casamento.

Um vinho feminino tem uma “opulência contida”
Ana descreve a enologia como uma espécie de alquimia. «Nunca chegamos a saber porque é que um lote funciona melhor que outro, quando a diferença entre os dois é menos de 1% de um determinado componente.» Notar essas subtis diferenças é fruto da sensibilidade, da personalidade de cada um, afirma. Retomando as questões do género, o que a especialista observa é que as mulheres enólogas têm uma maior atenção aos detalhes, uma vontade de querer controlar mais variáveis. «As mulheres pensam mais o processo, “overthink it”, para o bem e para o mal.» E, por vezes, ao provar vinhos feitos por mulheres, nota- lhes uma delicadeza no perfil, como que uma “opulência contida”. Mas não generaliza, até porque noutras ocasiões não encontra qualquer diferença.

Comparando os vinhos portugueses com os californianos, e «talvez por os consumidores norte-americanos gostarem mais de vinhos bastante frutados», nota que os segundos «são mais extraídos e com níveis alcoólicos mais elevados, acima dos 14%». Destaca também «um regresso às origens, com muitos vinhos a serem feitos com fermentações indígenas, em tanques de cimento ou de carvalho».

O preço é, em última instância, a grande constante diferenciadora: um vinho português de gama média-alta custa 10 vezes menos que um de qualidade semelhante produzido na Califórnia, especialmente nos condados de Napa e Sonoma.

Os portugueses, aconselha, têm de perder o medo de arriscar em relação aos vinhos que exportam. Quando vem a Portugal, prova “vinhos de conceito” muito interessantes, que «se chegassem ao mercado norte-americano seriam um sucesso». Mas a grande maioria dos vinhos portugueses exportados são de produção massiva, padronizados. Concretiza dando o exemplo dos vinhos verdes de gama superior, «que estão a perder a corrida ao ouro». Defende ainda um maior intercâmbio de ideias e experiências dentro do sector. «Há uma espécie de secretismo na enologia em Portugal que não ajuda em nada. Em contraste, na Califórnia, partilham-se ensaios, lotes, procura-se “feedback”, o que, no final, é benéfico para todos.

Rótulos com conceitos específicos para exportação
Ana Diogo-Draper vê os norte-americanos fascinados com a relação qualidade/preço dos vinhos portugueses, e também «com todas as castas que tanta dificuldade têm em pronunciar». Mas, dando como referência o Trosseau (Bastardo), «é uma variedade que nos últimos anos se tornou moda», mas nunca viu uma garrafa portuguesa de Bastardo nos EUA. Consequentemente, sugere que haja mais união entre os produtores, que tentem criar os seus próprios canais de distribuição.

Outra aposta deveria ser nos rótulos para exportar, talvez através da criação de conceitos específicos para determinados lotes. «Alguns rótulos são de muito difícil leitura no mercado norte-americano», afirma assertivamente.
E será que equaciona trabalhar em Portugal? A enóloga regressou ao país em Junho, e teve a oportunidade de visitar algumas adegas e ficar a conhecer melhor alguns projectos e produtores. Provou muitos vinhos também. «Voltei para a Califórnia com o bichinho de fazer vinho em Portugal. Está tudo a começar a borbulhar na minha cabeça… Um dia, quem sabe», deixou em aberto.

Portugal perdeu 47 mil hectares de vinha em cerca de dez anos, segundo dados de 2017 da Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal (ACIBEV), muito devido ao abandono das propriedades. Face aos incêndios catastróficos na região vinícola de Napa, quisemos saber quais as repercussões na produção californiana. Ana explicou que a maioria dos fogos registou-se em Outubro e, por isso, muito do Cabernet Sauvignon, a principal casta do condado, estava ainda por vindimar.

«Muita uva acabou por ficar na vinha, por estar bastante contaminada com “smoke taint”. E isso teve (e terá) graves repercussões económicas para a área», prenunciou. A cidade onde vive, Santa Rosa, no condado de Sonoma, «sofreu efeitos muitos devastadores, com mais de 5.000 casas ardidas dentro dos limites da urbe. Tal como em Portugal, constata, isso provocou um trauma colectivo na comunidade.


Sustentabilidade da fileira da vinha e do vinho

A Califórnia sempre se orgulhou de erguer bem alto a bandeira da sustentabilidade. A Associação de Produtores de Napa Valley (Napa Valley Vintners) tem programas de certificação tanto para a vinha, como para as adegas.

Na Artesa Winery, obtivemos a certificação da nossa vinha, e estamos em processo de certificação da adega. Estamos também a replantar a nossa vinha, e plantámos uma parcela para um ensaio, onde estamos a testar novos porta-enxertos e espaçamento (entre linhas e na linha) para melhorar a utilização da água do solo. Estamos também a fazer ensaios com clones de maturação precoce, para ver resultados em relação à data da vindima e a qualidade final desses lotes. A Califórnia teve três anos de seca muito severa, e a falta de água tornar-se-á norma no futuro. Temos de estar preparados.

 

Do especial Vinhos da edição nº 5 do Dia 15

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