A possível falácia sobre o consumo de ovos e peixe

Cada vez mais consumidores vão no embalo de pesquisas que afiançam que determinados alimentos isolados garantem maior qualidade de vida. Um fenómeno cultural cada vez mais evidente.

Uma dieta saudável dificilmente poderá recair apenas sobre alguns alimentos isolados, parece consensual. Naturalmente que existem substâncias químicas encontradas, digamos, nos mirtilos, que podem ser benéficas para a saúde, mas isso não significa que comer mais desta baga azul irá alavancar o seu bem-estar.
O epidemiologista Gid M-K dedica-se há mais de uma década a promover a transparência dos estudos científicos. E constatou que muitas destas substâncias ditas “milagrosas” podem ser pouco biodisponíveis (absorvidas pelo organismo), ou que as pesquisas podem ter apenas sido aplicadas em ratos de laboratório, sem terem sido replicados em humanos.

Quem não gosta de soluções fáceis?
Acreditar que ingerir mais quantidades de um determinado alimento pode garantir longevidade é difícil de contrariar. Seria muito mais fácil prevenir doenças cardíacas se bastasse uma pequena dose de flavonoides, como os encontrados no chá ou no chocolate. Infelizmente, nada é assim tão fácil.

Há vários casos que exemplificam como os consumidores embarcam facilmente nessas promessas miraculosas. Concentremos-nos nos ovos e no peixe. Recentemente, um grande estudo, publicado no British Medical Journal, e repercutido pela CNN, revelou que as pessoas que comiam mais ovos eram menos propensas a sofrer de doenças cardíacas. Um outro estudo, menos divulgado, que saiu no American Journal of Obstetrics & Gynecology, descobriu que os casais que consumiam mais peixe tinham mais sucesso nos tratamentos de fertilização “in vitro”.

Como seria de esperar, esses dois estudos suscitaram muito interesse, particularmente o que recaiu sobre os ovos. Acontece, porém, que ambos resultaram de métodos observacionais. O que significa que é muito difícil identificar a causa do resultado — gravidezes ou doenças cardíacas.

O estudo relativo aos ovos foi impressionante; abrangeu 500 mil (sim, meio milhão) de pessoas. E o que os investigadores descobriram é que aqueles que comiam ovos com maior frequência (um por dia, pelo menos) tinham menores probabilidades de sofrer de uma variedade de doenças cardíacas, embora o resultado não fosse completamente consistente — os próprios admitem-no. Os estudiosos também se debruçaram sobre vários outros factores externos, como os rendimentos e o grau de habilitações.

Um ovo por dia, nem sabe o bem que lhe fazia
Há também a questão do benefício relativo versus absoluto. No caso dos ovos, bastaria ingerir um por dia para se verificar uma redução de 18% na incidência de risco de doenças cardíacas. Isso é falacioso — a diferença relativa no risco de doenças cardíacas foi de 18%, mas como estas doenças não são assim tão comuns, a diferença absoluta é menor que 0,001%. O mesmo erro pode ser constatado no estudo relativo ao consumo de peixe: o relato era sobre o aumento relativo nas gravidezes, mas as diferenças reais de risco são menos expressivas.

Ambos os estudos foram relatados como sendo aplicáveis a todos; o que é passível de contestação. O trabalho que envolveu os ovos teve como amostra a população chinesa, e estudos realizados na Europa e no Japão resultaram em evidências completamente opostas: comer muitos ovos está vinculado a uma maior incidência de doenças cardíacas. Da mesma forma, as pessoas envolvidas no estudo sobre peixe estavam todas a frequentar clínicas especializadas em fertilização “in vitro”. Ora, tal não pode ser aplicado à maioria dos casais. Neste caso, mais de 2/3 tinham um ou ambos dos parceiros a ganhar mais de 60 mil euros ao ano (cerca de 5.000 euros/mês), bem acima do que a população em geral aufere.

Chegamos ao busílis, os estudos raramente são relatados desta forma
A maioria dos trabalhos epidemiológicos são bastante interessantes, são feitas muitas associações com o quotidiano das pessoas, para determinar se as relações são causais. Por exemplo, comer peixe = gravidez — ou será apenas uma correlação — comer peixe = rico e rico = gravidez.

É improvável que haja um estudo tão bem controlado, e que envolva uma amostra com esta dimensão, que possa vincular um alimento específico a resultados de saúde como estes. Ansiamos por soluções simples, mas cumprir com disciplina uma dieta rigorosa é quase tão difícil quanto as nossas vidas. E, sobretudo, descobrir com precisão o que está a causar benefícios à saúde é muito difícil de comprovar.

Consulte um nutricionista
Os ovos até podem prevenir doenças cardíacas, mas talvez apenas no povo chinês. Ou talvez não sejam os ovos, uma vez que podem haver outros factores envolvidos.
Muitos destes estudos que implicam grandes populações até podem ter repercussões nas directrizes, mas, de forma realista, uma redução de 0,001% no risco de contrair uma doença é irrisória.
Nos dias de hoje, em que ter uma dieta saudável pode ser muito difícil, o mais aconselhável é consultar um nutricionista. Só não mude a sua vida com base num único estudo, e, sobretudo, se este apenas seguir o método observacional.
Até pode acontecer que as pessoas que comem mais ovos ingiram menos batatas fritas, sendo que o consumo destas últimas tem sido repetidamente associado a taxas mais elevadas de doenças cardíacas. Por conseguinte, talvez só pelo facto de substituir as batatas fritas na sua dieta por ovos cozidos já esteja a ser amigo do seu coração.


Peixe: consumir mais aumenta a líbido?

A pesquisa que incidiu sobre o consumo de peixe foi menos impressionante, mas também suscitou grande interesse. Os cientistas observaram centenas de casais que estavam a passar por fertilizações “in vitro” e perguntaram-lhes o que comiam. Descobriram que aqueles que ingeriam mais peixe demoravam menos tempo a engravidar, e também que tinham relações sexuais com mais regularidade. Alguns factores externos foram tidos em conta, mas não tão abrangentes quanto os reunidos no estudo sobre os ovos.
No entanto, há que fazer ressalvas em relação a ambos os trabalhos. Além de observacionais, os investigadores não conseguiram controlar todas as variáveis. No caso dos casais desejosos por terem filhos, é provável que algo além do peixe estivesse a afectar as taxas de fertilidade.

Da edição nº 5 do Dia 15

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