A propósito de um incêndio

Não ardeu apenas uma igreja de Paris, mas um pedaço da civilização global que a Europa está a construir.

O incêndio da Notre-Dame foi um episódio chocante para todos aqueles que apreciam a beleza e amam a arte, foi um vislumbre do inferno para os católicos, um golpe severo no património humano e na memória histórica da esplendorosa Paris. Esta tragédia foi também um momento em que compreendemos melhor o que significa ser europeu, pois essa é uma reflexão que fazemos com mais facilidade ao perdemos a substância do passado.

O que se perdeu no fogo foi arte gótica, História de séculos, valores humanos, a pedra transcendente e sublime, a herança cristã, a luz através dos vitrais. Aquela igreja não continha a síntese perfeita da Europa contemporânea, mas era um pedaço riquíssimo das nossas tradições profundas. O respeito popular pelo acontecimento mostrou que o essencial não se perde para sempre, que haverá a reconstrução, que Notre-Dame renascerá das cinzas.

A Europa sempre se baseou na ideia de renovação. Ao longo da sua turbulenta História, este espaço geográfico impreciso foi um dos lugares mais criativos do mundo, mesmo quando não esmoreciam as ideias de declínio e decadência.

Hoje, a Europa está em mudança, tem os seus problemas, mas não pode esquecer a grandeza da civilização global que ajudou a construir. Esta é uma construção complexa, de séculos, com tragédias no caminho, com horrores e erros, onde a União Europeia não é mais do que uma faceta, não um sinónimo. A Europa não é possível sem as nações que a formam; a união não faz sentido sem as culturas diversas, a literatura em muitas línguas e a grande arte em numerosas expressões; a Europa é uma inquietação, o espírito curioso que não abdica da liberdade.

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