Abandonai, ó utentes da CP, toda a esperança

O Dr. Costa, que ficou famoso por organizar uma corrida entre um burro e um Ferrari, devia agora promover uma competição entre ele próprio e o Intercidades.

Durante séculos, a Humanidade mediu o tempo através da posição do Sol. E, portanto, era natural que o meio-dia não acontecesse ao mesmo tempo para os habitantes daqui e dacolá. Quando os relógios mecânicos apareceram, esta situação de disparidade do tempo não mudou. Por muitos anos, a convenção seguida foi que cada cidade ajustasse o seu tempo em função do meridiano em que se situava. E assim, para vermos um exemplo, quando eram 12h00 em Bristol, seriam 12h10 em Londres. Isto não constituía realmente um problema quando as comunicações de longa distância eram lentas ou inexistentes. Depois, o progresso veio baralhar as coisas. Com a chegada da ferrovia, impôs-se alguma uniformização. Os comboios que partiam de Londres regiam-se pelo tempo de Greenwich. Mas os comboios com origem em Bristol seguiam o tempo do meridiano local. Não é difícil perceber a dificuldade dos passageiros que vinham de Londres em acertar com a hora das ligações ou dos regressos. E vice-versa. Para acabar com o pandemónio, decidiu-se que todos os comboios britânicos utilizariam Greenwich como referência. Daí partiu-se, mais tarde, para um consenso que levou a que muitos países fixassem uma única hora legal dentro do seu território. E mesmo naqueles casos em que a dimensão impõe diversidade de fusos horários, persiste uma determinada organização. Se a hora de Nova Iorque e de Los Angeles não pode ser a mesma, subjaz à situação uma certa racionalidade. Estes princípios de organização do tempo pareciam um adquirido da Humanidade, uma daquelas bases a que se tinha chegado depois de milhares de anos da evolução. Algo tão básico como lavar os dentes depois de comer cebola. Que Diabo: se um tipo está em Braga, independentemente da posição do Sol, do meridiano ou do caraças, sabe que tem a mesma hora que teria se estivesse em Lisboa. Não é? Pois. A verdade é que não é. E isto graças à CP. A CP dos comboios está a contribuir para lixar os princípios de organização do tempo que o próprio transporte ferroviário tinha historicamente contribuído para harmonizar. Vejamos. A CP afirma que o Alfa que parte às 19h00 de Santa Apolónia chega a Braga às 22h25. Mas isso será na hora de Lisboa. Porque a Braga nunca chega antes das 22h40 ou 22h50, hora local. Nos dias bons, que não são assim tantos. Nos dias maus, as coisas são mais complicadas. Veja-se o caso de um passageiro que apanhou o Alfa que parte de Lisboa às 17h00. Entrou no comboio perfeitamente escanhoado e portador de uma vasta melena. Quando passou em Coimbra B já tinha mais barba e menos cabelo que o João Miguel Tavares. Aqui há uns anos, gerou-se grande polémica porque uma determinada classe profissional recebia subsídio para cortar o cabelo. Tendo em conta o tempo que as viagens da CP demoram, os revisores e maquinistas da empresa deviam ter direito a que lhes aparassem as pontas durante o trajecto, sob pena de os familiares não os reconhecerem no regresso a casa. E isto não é uma questão de centralismo. No percurso inverso acontece o mesmo. O Alfa que sai do Porto às 7h45 devia chegar a Lisboa às 10.40. Mas não. Em geral, chega depois das 11h00. Hora local, claro. O Dr. Costa, que ficou famoso por organizar uma corrida entre um burro e um Ferrari durante a campanha para umas autárquicas do século passado, devia promover agora uma competição entre ele próprio e um Intercidades. Em 1993, o burro ganhou. Da maneira que as coisas estão na CP, o Dr. Costa, não desfazendo, tem todas as condições para não lhe ficar atrás. Há mesmo uma possibilidade não despicienda de o material de guerra desaparecido de Tancos estar, afinal, em trânsito numa locomotiva da CP que partiu em 2017 e que ainda não chegou ao destino. Os cientistas afirmam que o tempo é uma grandeza física. Mas não na CP. Na CP, o tempo é uma enormidade. Uma grandiosidade. Nas epopeias portuguesas esteve sempre presente o Oriente. No tempo das Descobertas, como destino. Hoje, se o mar estivesse para cronistas, o Fernão Mendes Pinto dos nossos dias escreveria uma obra-prima baseado numa longa viagem iniciada numa estação ferroviária desenhada pelo Calatrava ali para os lados da Expo. O Adamastor dos nossos tempos fixou residência por alturas do Entroncamento. E muito poucos podem gabar-se de ter dobrado esse novo Cabo das Tormentas à hora prevista. A previsão de horário dos Alfa e Intercidades da CP existe para dar credibilidade à da ponte aérea da TAP. Que, por sua vez, existe para dar credibilidade às dos economistas. Que, por sua vez, existem para dar credibilidade às dos meteorologistas. Mas se isto é assim nos comboios rápidos (ihihihih), a coisa pia ainda mais fino noutros serviços. Na linha do Oeste, até se torna difícil fazer oposição. Em dias consecutivos, partidos políticos tentaram viajar na CP para demonstrar as insuficiências do seu desempenho. Em nenhuma das ocasiões o comboio chegou sequer a partir. Quando a próxima bancarrota chegar, a verdade é que já ninguém nos tira estes momentos de boa disposição. Se quisermos ser sinceros, não temos propriamente caminho de ferro. Temos um caminho das pedras destinado a testar a fibra heróica dos utentes. A situação chegou a tal estado que as contas da CP nas redes sociais são as primeiras a gozar com a coisa. Duas em cada três publicações dedicam-se a ridicularizar o serviço. Os atrasos, a falta crónica de wi-fi , a ausência de climatização, os cancelamentos, as supressões, os milhares de horas perdidas porque os passageiros não chegam a tempo de apanhar ligações. Tem tudo muita piada. Aliás, estou convencido de que o gestor de conteúdos da CP deve ser a mesma pessoa que se lembrou, com evidente optimismo, de chamar material circulante às locomotivas e automotoras da CP.

Da edição nº 4 do Dia 15

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