Abecedário climático

As mudanças atmosféricas podem ser analisadas sob as mais diversas perspectivas. Aqui ficar um olhar polifacetado sobre o fenómeno – em forma de dicionário, com todas as letras do nosso alfabeto. Desde o A de alarmista até ao Z de zelo.

ANTROPOCENO

Alguns cientistas denominam assim o ciclo de alterações meteorológicas que resultam inequivocamente da intervenção humana, em regra associadas ao aumento das emissões de dióxido de carbono. O termo foi cunhado no ano 2000 pelo holandês Paul Crutzen, galardoado em 1995 com o Nobel da Química. De acordo com este especialista em modificações climáticas, vivemos nesta era desde a revolução industrial iniciada com a invenção da máquina a vapor, no século XVIII. Há no entanto quem mencione uma data muito posterior e bem específica: 16 de Julho de 1945, quando os EUA fizeram o primeiro teste nuclear, no deserto de Alamogordo (Novo México).

ATMOSFERA

Camada de ar que envolve o nosso planeta, fundamental para a manutenção da vida por regular a temperatura e o clima da Terra. É composta por gases – com destaque para o azoto (78%) e o oxigénio (20,9%) – que acompanham o movimento planetário e protegem-nos de radiações cósmicas e de meteoros, funcionando como um filtro da radiação solar e tornando a temperatura amena. A camada mais próxima da superfície terrestre, até uma altitude de 12 metros, chama-se troposfera.

CALOR

Ocasionado por transferências de energia térmica. No Verão de 2003, durante mais de 20 dias, a Europa foi afectada por uma vasta onda de calor, que causou cerca de 35 mil mortos – provocada por uma anomalia da pressão atmosférica e pela deslocação de ar muito quente e seco vindo do Mediterrâneo, segundo uns, e consequência do aquecimento global, na perspectiva de outros. Portugal tem sentido desde o início deste ano temperaturas abaixo do normal, em sentido inverso ao que se passa no centro da Europa.

CLIMATEGATE

Ficou conhecido por este nome um caso ocorrido em Novembro de 2009, quando piratas informáticos acederam ilegalmente a um servidor da Universidade de East Anglia, no Reino Unido: a divulgação destes ficheiros informáticos indiciava que um grupo restrito de cientistas britânicos teria manipulado dados estatísticos para exagerar a dimensão e as consequências do aquecimento global. A controvérsia ganhou maior dimensão por ter acontecido a poucos dias da abertura da Cimeira do Clima realizada em Copenhaga, a 7 de Dezembro de 2009, e passou das páginas dos jornais para os debates na Câmara dos Comuns. Mas as investigações de âmbito académico entretanto efectuadas concluíram não ter havido práticas ilícitas por parte dos cientistas, o que não evitou novas críticas por parte dos sectores que negam a existência de qualquer relação entre as alterações climáticas e a intervenção humana.

ENERGIA

As energias fósseis – carvão, petróleo e gás natural – são poluentes e produzem danos ambientais. Nos últimos anos, com incentivos governamentais diversos, têm proliferado vias alternativas de produção de energia a partir de combustíveis com baixo teor de emissões ou isentas de carbono: turbinas eólicas, turbinas a gás natural, tecnologias de gaseificação de carvão e reactores nucleares de nova geração.

ESTUFA

O chamado efeito de estufa é um fenómeno natural, decorrente do processo de absorção das radiações solares por gases contidos na atmosfera, que retêm o calor. É vital para a manutenção da energia térmica e a sobrevivência dos diversos organismos animais e vegetais. O aquecimento generalizado do planeta ocorrido no último meio século deve-se ao reforço da concentração dos gases com efeitos de estufa.

GLACIAR

Vasta e espessa massa de gelo formada pela acumulação de neve ao longo de períodos demorados, que se desloca lentamente como se fosse um rio de gelo, quer descendo das montanhas e formando vales glaciários, quer movendo-se para o exterior de áreas de acumulação, como acontece com os glaciares continentais. Os glaciares dos Alpes e dos Andes, por exemplo, estão em regressão acelerada.

Dióxido de carbono

Composto químico também conhecido por anidrido carbónico, integra apenas 0,04% da atmosfera mas é essencial à vida terrestre devido à sua influência na fotossíntese das plantas, originando assim o início de uma vasta cadeia alimentar. As emissões deste gás resultam da respiração animal e vegetal, podem ser provocadas por erupções vulcânicas e provêm também da actividade económica, tendo-se intensificado a partir do fim da primeira metade do século XIX, com a expansão da Revolução Industrial. Conhecido pelo símbolo químico CO2, é um produto da combustão, vital no processo de abastecimento de energia em todo o mundo industralizado. O acréscimo de dióxido de carbono reforça a capacidade da atmosfera de absorver calor, potenciando o aumento das temperaturas médias.

HOLOCENO

Época geológica em que vivemos, iniciada há 11.700 anos, quando terminou a última era glacial. Foi antecedida pelo Pleistoceno. O sufixo “ceno” deriva da palavra grega que significa novo. INTERGLACIAL Designa-se assim o período longo, como aquele em que vivemos, situados entre duas eras glaciais, segundo a teoria dos ciclos formulada pelo geofísico sérvio Milutin Milankovitch (1879-1958), que relaciona as alterações climáticas com os movimentos orbitais do planeta.

IPCC

Painel Intergovernamental da ONU Para as Alterações Climáticas (do acrónimo original, em inglês, Intergovernmental Panel on Climate Change). Organização criada em 1988, com sede na cidade suíça de Genebra. Tem como missão recolher e divulgar provas científicas das alterações climáticas que perturbam o meio ambiente. No seu relatório de 2007 lançou um alerta global contra a subida da temperatura. Nesse ano, foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz. Em 2013, noutro relatório, revelou que a temperatura média global aumentou 0,85º entre 1880 e 2012, atribuindo tal subida, «com elevado grau de certeza», à emissão de gases de estufa por interferência humana.

IPMA

Instituto Português do Mar e da Atmosfera, sob a tutela do Ministério do Mar. Tem como atribuições essenciais «promover e coordenar a investigação científica, o desenvolvimento tecnológico, a inovação e a prestação de serviços no domínio do mar e da atmosfera». Funciona como autoridade nacional nos domínios da meteorologia, da meteorologia aeronáutica, do clima, da sismologia e do geomagnetismo. Fundado em 1946, foi então designado Serviço Meteorológico Nacional. Em 1976 passou a chamar-se Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica. Em 1993, viu o nome ser abreviado para Instituto de Meteorologia. Ostenta a actual designação desde 2012.

OZONO

Gás que na estratosfera – entre 12 km e 50 km de altitude na camada atmosférica – protege o planeta das radiações ultravioletas. A 16 de Setembro de 1987 foi assinado o Protocolo de Montreal, no Canadá, que abrangeu 150 países. Todos se comprometeram a reduzir a produção e consumo de substâncias químicas destruidoras deste gás. O buraco na camada de ozono é um fenómeno sazonal, que ocorre quando os raios solares voltam a incidir nas latitudes polares, durante a Primavera austral. Em 2006 chegou a medir 29 milhões de km². Em 2017, porém, só mediu 19,6 km². Estimativas científicas antecipam que os níveis de azono antárctico da década de 80 só sejam recuperados por volta de 2060.

JURÁSSICO

Período geológico que sucedeu ao Triássico – em que terá surgido o Oceano Atlântico – e antecedeu o Cretáceo, quando desapareceram os dinossáurios. Durou cerca de 65 milhões de anos, com início há 201 milhões de anos. As temperaturas médias do planeta seriam então de 18º – quatro graus acima das actuais.

FURACÃO

Ciclone tropical que retira o essencial da sua energia da água do mar e tende a intensificar- se e avolumar-se à medida que as temperaturas oceânicas aumentam, ampliando o seu potencial destruidor. Tristemente célebre foi o ‘Katrina’ – um dos maiores acidentes naturais da história dos EUA – que em Agosto de 2005 devastou a cidade de Nova Orleães, provocando 1.836 mortos.

LAUDATO SI

Locução latina que significa «Louvado sejas». Nome de uma encíclica dedicada a questões ambientais publicada em 2015 pelo Papa Francisco. Neste documento, o Sumo Pontífice assegura que «o aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra».

METANO

Considerado o terceiro gás gerador do efeito de estufa, após o dióxido de carbono e o vapor de água. Permanece menos tempo na atmosfera do que o CO2 mas tem um potencial de aquecimento muito superior. É o principal elemento do gás natural, com origem na decomposição da matéria orgânica. Os ruminantes como a vaca, o búfalo ou o camelo são responsáveis por cerca de 28% das emissões mundiais de metano, devido à fermentação orgânica durante o processo de digestão destes animais, que assim contribuem para o aquecimento global.

NEGACIONISTA

Corrente da climatologia que rejeita nexos causais entre a acção do homem e o aquecimento global, atribuindo o aumento da temperatura terrestre a causas naturais, nomeadamente a intensificação da actividade solar e a própria órbita do planeta, com inevitável influência no clima.

OCEANO

Cerca de 71% da superfície da Terra é composta por água. As camadas marítimas do planeta são grandes fontes de armazenamento da energia solar. Um dos factores mais preocupantes das alterações climáticas relaciona-se com a subida das águas oceânicas. Cálculos rigorosos comprovam que entre 1901 e 2010 o mar a nível planetário elevou-se 195 milímetros em termos médios. Se esta tendência persistir, no final do século XXI as águas oceânicas terão subido entre 26 e 98 centímetros, conforme as regiões, segundo estimativas do IPCC.

SOL

Fonte suprema de energia no nosso planeta, o terceiro do sistema solar. Transmite- se em forma de luz, aquecendo a superfície terrestre e os oceanos.

TEMPERATURA

É regulada pelos gases que são retidos na atmosfera, como o dióxido de carbono, o metano e o vapor de água, responsáveis pelo calor indispensável à vida. A temperatura média da Terra é de 14º, com variações entre -60º e 45º, igualmente em termos médios. As temperaturas no hemisfério norte têm vindo a aumentar consistentemente desde a década de 1970. Segundo a NASA, em 2017 foi 0,9º mais elevada do que a média registada entre 1951 e 1980. As diversas correntes de climatólogos concordam neste ponto: a temperatura do nosso planeta subiu 0,6º no século XX.

ULTRAVIOLETA

As radiações ultravioletas integram o espectro solar e são filtradas pela camada de ozono existente na estratosfera. A diminuição deste gás, em certas épocas do ano, deixa passar aquelas radiações, potenciando sérios danos na pele humana – designadamente alergias, queimaduras, cataratas e melanomas.

VAPOR DE ÁGUA

Nome atribuído à água quando se encontra no estado gasoso. Integra cerca de 1% da atmosfera. Os índices de concentração do vapor de água na atmosfera têm aumentado nas últimas décadas, sobretudo entre os 5 km e os 11 km a partir da superfície terrestre, reforçando o efeito de estufa.

XIS

Numa equação, é a incógnita. O futuro climático equaciona-se com muito mais dúvidas do que certezas. Desde logo porque uma previsão razoavelmente segura do tempo raras vezes se aventura, com bases credíveis, para além de um prazo de duas semanas. Resta o campo das hipóteses, que é por natureza inesgotável.

ZELO

A 31 de Maio, Hamburgo tornou-se a primeira cidade da Alemanha a proibir a circulação dos veículos a ‘diesel’ em duas das suas artérias principais, totalizando dois quilómetros de extensão. Em nome dos benefícios climáticos e ambientais. Este zelo das autoridades municipais da terceira maior cidade germânica promete ser imitado noutras extensas áreas urbanas, dando assim corpo à directiva comunitária Euro-6, aprovada em 2015. Cerca de 265 mil veículos a ‘diesel’ circulam diariamente em Hamburgo, cidade com quase dois milhões de habitantes. Vale a pena assinalar: a directiva europeia teve luz verde no mesmo ano em que a Volkswagen – maior fabricante mundial de automóveis – reconheceu ter adulterado programas informáticos em quase meio milhão de veículos exportados para os Estados Unidos para contornar os limites legais de emissões de gases tóxicos. As viaturas chegavam a emitir quantidades de poluentes 40 vezes superiores ao estabelecido na legislação ambiental norte-americana.

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