Alguns efeitos das eleições europeias

Em alguns países, incluindo Portugal, a votação para o Parlamento Europeu antecede legislativas. Em vários países, haverá consequências dos resultados.

As eleições europeias começaram esta quinta-feira, no Reino Unido e Holanda, e terminam no domingo, sendo provável que haja resultados surpreendentes em alguns dos 28 Estados envolvidos. Os espanhóis vão votar simultaneamente em eleições locais e regionais, mas a votação para o Parlamento Europeu terá consequências na política interna sobretudo dos cinco países que estão mais perto de eleições legislativas. Ainda em 2019, elegem-se os parlamentos português, austríaco, polaco, dinamarquês e grego. Na Roménia, haverá eleições presidenciais. Tendo em conta as agregações de sondagens conhecidas, é possível fazer algumas previsões sobre os resultados e as suas consequências.

Em Portugal, onde a vitória provável será do PS, não deve haver efeitos políticos imediatos, mas no futuro Parlamento Europeu será necessário incluir a família liberal nos arranjos de poder, sendo provável que os socialistas e liberais recebam dois dos três cargos mais importantes nas instituições. Sendo assim, é natural que António Costa seja um nome considerado para a Presidência do Conselho (o segundo cargo mais relevante iria para os socialistas e tem de ser um primeiro-ministro). A Comissão ficava com os conservadores e o eurogrupo iria para os liberais. Estas negociações são discretas e delicadas, podem mudar no último minuto, dependem das grandes potências, mas apesar dos desmentidos a possibilidade é real. Aparentemente, Costa tem o apoio de Emmanuel Macron, que também apoia o conservador Michel Barnier para presidente da Comissão.

Isto diz respeito a cenários mais alargados. Vejamos o que pode acontecer, país a país:  no Reino Unido, o favorito é uma formação de protesto, o Brexit Party, que surge com 36% nas intenções de voto. O sistema partidário está estilhaçado. O Partido Conservador não irá além de 7% e a primeira-ministra Theresa May deve anunciar a sua demissão já esta sexta-feira, lançando uma corrida pela liderança do partido. Os deputados britânicos nem tomarão posse dos seus lugares, pois os partidos não podem ignorar este resultado e vão acelerar o processo de Brexit.

Na Holanda, o partido da liberdade (VVD), do primeiro-ministro Mark Rutte (liberal) está empatado com uma nova formação de protesto, Fórum Democrático, fundado em 2016 por Thierry Boudet. Nas legislativas de 2017, o FvD teve apenas 1,8%, mas agora cresceu para 15%. Rutte perde cinco ou seis pontos percentuais em relação a 2017, mas a extrema-direita de Geert Wilders também cai para metade, enquanto os trabalhistas de Frans Timmermans estão a subir, superando os verdes.

Entre os pequenos países, as eleições mais interessantes serão na Grécia e na Áustria. O Syriza deve perder para a Nova Democracia, que tem excelentes hipóteses de regressar ao poder em Outubro. Na Áustria, onde o governo colapsou esta semana, o chanceler Sebastian Kurz (OVP, conservador) terá uma oportunidade dourada de se desembaraçar da extrema-direita (FPO, nacionalistas), na sequência de um escândalo de corrupção envolvendo o líder do seu parceiro de coligação. O impacto do escândalo é difícil de avaliar.

Em Itália, Polónia e França, haverá resultados de grande significado, mas sem consequências imediatas. A Liga, de Matteo Salvini, segundo maior partido da coligação de governo em Itália, vence o Movimento Cinco Estrelas (31% contra 23%), invertendo-se o equilíbrio entre os dois parceiros. A situação pode evoluir para uma redistribuição de poder ou eleições antecipadas, mas a votação mostra que se mantém um enorme voto de protesto. O mesmo se aplica em França, onde a União Nacional de Marine Le Pen pode vencer a lista do Presidente Emmanuel Macron. As duas formações estão empatadas, em redor de 23%. Assinale-se ainda o reaparecimento dos Republicanos (gaulistas conservadores), que devem atingir 13%.

Estas eleições terão outras curiosidades. Na Alemanha, os Verdes passam a liderar a esquerda e, na Roménia, os pós-comunistas no poder (PSD) vão ser superados pelos liberais do PNL. Aqui, estarão em jogo sobretudo as presidenciais e o centro-direita tem excelentes condições para manter o controlo da presidência. O governo, cada vez mais contestado, deverá cair a médio prazo.

Há outras duas curiosidades a leste: na Polónia, o Partido da Lei e Justiça (PiS, conservadores nacionalistas) tem um desafio difícil, com a aproximação da Coligação pela Europa (que junta os seus rivais da Plataforma Cívica e os pós-comunistas). A questão que se coloca é se o PiS vai conseguir resistir nas legislativas. Também na Hungria há uma mudança subtil, mas com potenciais implicações só em 2022. O Fidesz de Viktor Orbán tem 55% das intenções de voto, a extrema-direita (Jobbik) fica apenas com 10%, mas entretanto está a consolidar-se na área liberal um pequeno partido de protesto (Momentum Mozgalom, MoMo) que, com 6%, pela primeira vez supera a força tradicional daquela área, o LMP, o qual nunca conseguiu ser uma ameaça para Orbán. O MoMo tem três anos para mostrar o que vale.

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