Alto drama no momento da decisão sobre o Brexit

Parlamento britânico continua a impedir todas as soluções, tornando impossível a estratégia da primeira-ministra Theresa May.

No Parlamento britânico vivem-se dias de alto drama. A fragmentação do Partido Conservador e do próprio Governo de Theresa May sobre a estratégia para o Brexit resultou em nova derrota para a primeira-ministra, na quarta-feira, estando prevista para esta quinta-feira uma nova votação capaz de baralhar o reality show político mais interessante dos últimos anos. Desta vez está em causa a extensão do Artigo 50 do Tratado de Lisboa, ao abrigo do qual o Reino Unido terá de sair da União Europeia no dia 29 deste mês. Se os deputados recusarem a extensão, a data terá de se aplicar, apesar da votação na véspera. A extensão devia ser o cenário mais provável, mas o Parlamento Britânico está tão fragmentado, que se tornou imprevisível.

Na quarta-feira, os comuns rejeitaram por uma pequeníssima maioria de quatro votos a possibilidade de o Reino Unido sair da UE sem acordo, seja qual for a circunstância. Descontente com esta derrota por um cabelo, o Governo apresentou uma moção semelhante e pediu aos deputados conservadores para votarem contra, mas houve uma rebelião que incluiu ministros e secretários de Estado. A manobra falhou e a saída sem acordo foi rejeitada de novo, por 321 votos contra 278, com maioria mais alargada de 43.

O governo está a partir-se (pode nem sobreviver aos próximos dias) o Partido Conservador parece dividido em três facções, com destaque para o grupo de deputados a favor da saída sem acordo, que garantiu o chumbo do plano de May votado na terça-feira. O Partido Trabalhista também se fragmentou em duas partes, entre os que apoiam a posição ambígua do líder, Jeremy Corbyn, e os defensores de um compromisso que permita o Brexit.

O futuro do Brexit e da primeira-ministra dependem agora de uma manobra desesperada. O Governo quer assegurar a possibilidade de extensão do Artigo 50, com uma espécie de chantagem sobre os deputados conservadores favoráveis ao hard Brexit: assinem o acordo que chumbaram por duas vezes ou teremos uma extensão longa, o que dará oportunidade aos que defendem a reversão do Brexit. A extensão pode ir até 30 de Junho, o que obrigava o Reino Unido a participar nas eleições europeias.

Se os radicais do Brexit e os unionistas irlandeses forem convencidos de que necessitam de votar no acordo de May para garantir a saída, a primeira-ministra tentará pela terceira vez apresentar o plano que negociou com a União Europeia. Essa votação está prevista para dia 20, na véspera de uma cimeira europeia onde a chefe do governo britânico estaria presente com uma solução que até podia dispensar o adiamento da saída.

Este é apenas o único cenário que resta a May e que, provavelmente, estará ligado a um entendimento de bastidores sobre a futura substituição da primeira-ministra. Tudo o resto é ainda possível: o Reino Unido pode sair sem acordo no dia 29, apesar da votação de quarta-feira, pois é o que diz a lei. Pode ocorrer um adiamento longo, aprovado pela União Europeia, que daria tempo para realizar eleições ou até o segundo referendo (o Reino Unido corria o risco de ter a sua política envenenada durante anos). Nestes dias de crise, o governo arrisca-se a morrer na praia, por dissolução interna ou moção de censura. A duas semanas da saída, o bloqueio e a indefinição permitem dizer que nada está garantido.

 

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