«As novas gerações têm de encontrar os seus manguitos»

Assiste-se a uma nova forma de censura financeira exercida pelos grandes monopólios editoriais, que controlam as livrarias. E isso traduz-se num empobrecimento da cultura, porque deixa de haver lugar para a diferença. A sentença é do escritor e ensaísta Helder Macedo, que esteve à conversa com o DIA15 a partir de Londres, onde vive.

Como vê o estado actual das coisas?

Depende de quais. Há coisas boas e outras más. Como em todas as épocas. Não sou daqueles que acham sempre que o passado foi me­lhor. Mas que há coisas más a acontecer, isso há. Sobretudo há uma grande confusão de valores.

 

Vivemos numa era da irrelevância?

Não, não acho que seja uma era de irrelevância. Pelo contrário, há novas relevâncias. Mas é ne­cessário detectá-las e defini-las. O crescimento dos fundamenta­lismos, por exemplo, não é irre­levante. E quando falo em fundamentalismos refiro-me tanto ao islâmico quanto ao cristão. O que está a acontecer agora no Bra­sil reflecte uma espécie de fun­damentalismo cristão. O qual, é claro, resulta de uma grande confusão de valores que gera novas confusões. Por exemplo, o actual presidente do Brasil su­geriu em tempos que o problema da pobreza se resolvia natural­mente, com a morte dos pobres. E depois muitos pobres votaram nele. O presidente Trump não podia ter uma atitude mais de­gradante em relação às mulhe­res. E as mulheres americanas (a maioria das mulheres brancas americanas!) votaram nele. O actual crescimento do chamado populismo resulta numa forma de totalitarismo para o qual ain­da se não encontraram respos­tas adequadas. E esse é o grande desafio: encontrar a necessária relevância alternativa.

 

Para si, qual é o significado da vida, da existência?

O significado da vida é sem­pre uma conquista. A vida, em si própria, não tem significado. É um facto biológico. Um espa­ço acidental entre a morte e a morte. A responsabilidade — e a capacidade — humana é trans­formar esse espaço vazio num tempo com significação.

 

Que diagnóstico faz da Cultura em Portugal?

Nem tudo é negativo. Por exem­plo, no que respeita à literatura, há muitos mais leitores do que havia, mais traduções de clás­sicos, mais pessoas a escrever. O acesso à cultura nunca foi tão generalizado, tanto em termos de classes sociais quanto de uma crescente valorização das mu­lheres. Isso é bom. É um pro­gresso fundamental. Mas é um progresso que também pode le­var — e tem levado — a que se confunda quantidade com qua­lidade. O que não chega a ser grave, porque o tempo se en­carregará de distinguir o melhor do pior. O que eu acho negativo — e empobrecedor da cultu­ra — é a nova forma de censura financeira exercida pelos gran­des monopólios editoriais. Que controlam as livrarias, onde só se encontram livros editados por esses monopólios. Onde portan­to não há lugar para a diferen­ça. E a diferença é sempre mais criativa do que a semelhança. Actualmente, tal como no tem­po da censura salazarista, os jo­vens escritores ou se submetem às normas instituídas ou, com muita sorte e grande esforço, conseguem eventualmente ser publicados em edições de autor ou por pequenas editoras efé­meras, que não alcançam o pú­blico mais amplo. Isso por outro lado leva a que a crítica literária interveniente se tenha tornado virtualmente inexistente ou ir­relevante. Fazendo o frete aos mesmos monopólios editoriais, repetindo até à exaustão os mesmos nomes dos mesmos au­tores. E contribuindo, por isso, para que autores que deveriam ser novos, se tornem parecidos com os do costume. Já o disse várias vezes: é lastimável que a crítica literária nos jornais e nas revistas do tempo da dita­dura tenha sido mais relevante (e mais aventurosa) do que é ac­tualmente, em democracia. Mas a culpa não é da democracia, é dos vícios totalitários que ainda permanecem. Uma espécie de salazarismo nas almas…

 

«Mitifica-se o “grupo do Gelo” por aquilo que não foi. Certamente não foi um movimento literário»

 

Soluções para isso?

Não sei, talvez o público se farte do mesmismo prevalecente. Mas o Estado — a política cultural dos governos — deveria ajudar mais. Não compete ao Estado dirigir a cultura. Mas um Estado democrático deveria criar espa­ços para a diferença.

 

Fez parte do Grupo do Café Gelo. Onde andam as tertúlias, os movimentos literários?

No Café Gelo não havia propria­mente um grupo, éramos um conjunto de dissidências indi­viduais que tinham em comum várias e diferentes formas de recusa em relação a várias e di­ferentes formas de opressão. Desde a opressão supostamente moral à opressão oficialmente intelectual. Actualmente, mi­tifica-se o “grupo do Gelo” por aquilo que não foi. Certamente não foi um movimento literá­rio. E certamente não foi apenas surrealista, como tantas vezes se tem dito. Quando é que, por exemplo, o Herberto Helder e o Manuel de Castro foram surrealistas? Ou pintores como o João Vieira e o José Escada? O Gelo foi tão surrealista quanto anarquis­ta quanto politicamente incon­formista. Acima de tudo foi uma fábrica de manguitos. Compete às gerações actuais encontrar os seus próprios manguitos e não imitar os de outros tempos.

 

Censurar nos manuais escolares, por exemplo, versos do poema “Ode Triunfal”, de Álvaro Cam­pos, por conterem palavras como putas e masturbação, não será puritanismo? O que acontecerá aos Bocages e Natálias Correias desta vida?

É ridículo. E como todas as coi­sas ridículas, além do mais, é desnecessário. Começando por não ser obrigatório incluir esse poema nos manuais escolares. Há outros. Mas, uma vez incluí­do, é inadmissível que seja trun­cado. E também revela falta de confiança nos professores que poderiam comentar didatica­mente essa passagem do poema. Aliás, como bem sabe, o chocan­te nesses versos não é putas ou masturbação, mas pedofilia. E o grande tabu sexual do nosso tempo (tanto quanto ou mais ainda do que o incesto) é a pedo­filia. Pois que se encare a ques­tão e se explique porque razões não é boa ideia, e isso deve ser feito precisamente aos jovens mais vulneráveis e vítimas po­tenciais. Além de que os versos censurados são uma óbvia pro­vocação, para chocar os leitores “bem-pensantes”. Pois é, mas os censores nunca têm gran­de sentido de humor e se calhar é até por isso que são censores. Têm maus pensamentos. Como todos os puritanos. Mas repare, ao mesmo tempo que está a ha­ver, nos nossos dias, uma bené­fica libertação sexual que aceita a normalidade da homossexua­lidade, que reconhece a fluidez da sexualidade humana e que defende o direito das mulheres não se sujeitarem à sexualidade masculina exercida como poder económico e social, está também a haver um crescente puritanis­mo mais ou menos hipócrita e mais ou menos obtuso (quando não ganancioso). Por exemplo, pôr no mesmo saco, como assé­dio sexual, uma parvoíce de mau gosto contra uma mulher e uma violação sexual acaba por resul­tar em que se desvalorize o cri­me da violação como equivalen­te à parvoíce. A Natália Correia, que conheci bem nos tempos do Café Gelo, nunca se queixou de ser assediada. Nem ninguém se atreveria. Ela era a dona da sua própria sexualidade.

 

Face ao eventual desmembra­mento do arquivo privado da Fundação Mário Soares, e, no mesmo âmbito, considerando a Ephemera, de José Pacheco Pe­reira, que soluções vê para estas colecções? Não deveriam elas ser de acesso público?

Sim, claro que deveriam ser de acesso público. Até ficaria mais barato (e seria muito mais útil) do que gastar milhões em festi­vais literários em que os escri­tores do costume se vão ouvir uns aos outros a dizerem as coi­sas do costume.

 

Diz com alguma frequência que os portugueses são pródigos em ignorar os vivos e celebrar os mortos, podia concretizar?

Também tenho dito que somos um país com uma longa História e com memórias curtas. Noutras palavras, andam por aí muitos vivos que nasceram mortos e há mortos que permanecem vivos. O que há é pouca gente para dar pela diferença.

 

Considera urgente pensar que país fomos e que país queremos ser?

Sim, claro que sim. É sempre ur­gente, para cada geração. Sem tradição não há inovação, sem os clássicos não há modernos, sem o passado não há futuro.

 

Fazendo o retrato social de Por­tugal, que futuro vê para o país?

Essencialmente positivo. So­mos agora um país normal. Nem mais nem menos corrupto do que as outras democracias, com um acesso maior do que havia (embora ainda insufi­ciente) à educação, com menos gente a morrer de pobreza do que quando eu era novo… É cri­minoso que continue a haver, é claro. Como aliás também que continue a haver nos outros países “normais”. Ou seja, o que tem sido feito está longe de ser suficiente, mas tem havido pro­gresso. E continuará a haver se não nos trairmos a nós próprios. Como também pode acontecer…

 

Exilou-se em Londres entre os anos 60 e 70, regressou a Portu­gal, mas acabou por radicar-se definitivamente na Grã-Breta­nha. Porquê a decisão?

Tive de sair de Portugal aos 22 anos por razões políticas. A alternativa era a prisão ou o exílio. Depois de alguns anos difíceis, consegui organizar a minha vida na Inglaterra. Mas continuei a participar, na medi­da do possível, nas lutas contra a ditadura. No exílio era pouco, é claro, porque uma revolução (e menos ainda um país) não se faz de fora. Já tinha completado o meu doutoramento e estava a ensinar no King’s College de Londres quando celebrei, à dis­tância, o 25 de Abril. Regressei a Portugal, trabalhei como pude no contexto dos governos provisórios e em 1979 fui nomeado Secretário de Estado da Cultura no governo de Maria de Lour­des Pintasilgo. Que, como sabe, era um governo de transição, “o governo dos cem dias”, que acabou por ser de mais um mês. Muito do que esse governo fez — e fez muito — foi neutralizado pelo governo seguinte. Na área da cultura ficaram, pelo menos, duas coisas: a criação do Museu de Arte Moderna no Porto (pos­teriormente redimensionado em Serralves) e a compra das instalações da Cinemateca em Lisboa. Ficou também planeada a criação de um teatro nacional no Porto. Mas perguntou-me porque razão decidi regressar à Inglaterra. A resposta é simples: porque não quis ter uma carrei­ra política. Fiz o pouco que pude no pouco tempo que tive, mas sou sobretudo um escritor.

 

«A Natália Correia, que conheci bem nos tempos do Café Gelo, nunca se queixou de ser assediada. Nem ninguém se atreveria. Ela era a dona da sua própria sexualidade»

 

Recentemente, aquando do lançamento do livro de ensaios “Camões e Cervantes – Contras­tes e Convergências”, do qual é co-autor, falou sobre a actual Eu­ropa, nomeadamente do Brexit, e não só. Na sua opinião, para onde caminha o mundo?

O Brexit é um total disparate. E um sintoma negativo. Lembro­-me muitas vezes de um verso do Paul Eluard que, traduzido, é mais ou menos assim: «A pa­lavra fronteira é uma palavra vesga. Temos dois olhos para ver o mundo.» O crescente naciona­lismo na Europa é vesgo.

 

Recorrentemente, é referido como um espírito revolucionário, em que sentido? Concorda?

Se querer ser livre é ser revolucio­nário… Porque não? Mas acho que isso é que deveria ser a norma.

 

É um polímata. Há ainda algo que sonhasse ter feito e nunca teve oportunidade de concretizar?

Ui, tantas coisas! Mas talvez ainda tenha tempo para mais uma ou duas.

 

A ter de recomendar um livro fundamental?

Nós, os portugueses, temos a sorte de ter um dos maiores escritores de sempre, em qual­quer língua. Refiro-me, é claro, a Luís de Camões. Que, de par apenas com Shakespeare e Cer­vantes, inaugurou a percepção do mundo moderno, o mundo da nossa contemporaneidade. Recomendo portanto, ainda mais do que “Os Lusíadas”, a obra lírica de Camões.

 

Um postulado filosófico que para si seja quase como um dogma?

Dois versos de Camões, ambos da Canção VII (“Manda-me amor que cante docemente”): “Conheci-me não ter conhe­cimento” e “Cada um com o seu contrário num sujeito”. No trânsito entre uma coisa e a ou­tra está o sentido possível de haver vida.

 

Entrevista a Helder Macedo publicada na edição n.º 10 do DIA15.

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