«As pessoas já não sabem o que é real e o que é mentira»

Crítico severo da crescente dependência dos órgãos de informação face às redes sociais, Vicente Jorge Silva faz um diagnóstico pessimista do actual panorama jornalístico, que fomenta campanhas tóxicas e teorias da conspiração.

«Vão-se construindo castelos que fomentam os populismos. Isto não afecta só a comunicação social: afecta diversos aspectos da nossa vida quotidiana, até na maneira como nos relacionamos uns com os outros», alerta o fundador do “Público” em entrevista ao DIA15.

 

Quase 30 anos após a fundação do “Público”, como lembra hoje a necessidade que sentiu à época de avançar para um projecto tão ousado como este foi?

Não fui só eu a sentir essa necessidade: uma grande parte da Redacção do “Expresso” passou para o “Público”. No Norte, por exemplo, foi a Redacção toda. Sentíamos que o ritmo da informação já não era semanal.

Nessa altura havia em Lisboa ainda alguma imprensa vespertina, mas estava já numa certa decadência, e um matutino, o “Diário de Notícias”, que era muito oficioso. Sentíamos que faltava um jornal diário independente dos poderes – designadamente do poder político.
Essa necessidade de estar mais em cima da notícia, todos os dias, é que nos fez criar um jornal diário de raiz em Portugal. Pensámos quem poderia financiar o jornal, dando garantias de independência.
Claro que todas as apostas eram arriscadas, mas sentimos que um grupo como a Sonae podia dar-nos essas garantias.

 

Houve mesmo essas garantias?

Quem tem o poder económico tende sempre a considerar que o direito de propriedade dá outros direitos, nomeadamente o direito de ingerência. Eu a princípio geri isso com relativo desportivismo com o engenheiro Belmiro de Azevedo [à época presidente do grupo Sonae].

Mas como de facto a imprensa não é um grande negócio, antes pelo contrário, havia sempre o argumento de que o jornal não gerava dinheiro suficiente para se pagar. E a verdade é que nós, no início, fizemos um investimento grande nas novas tecnologias, que eram muito mais caras.

Havia, por exemplo, um sistema de pré-impressão do jornal com custos astronómicos, quando hoje é muito mais acessível. Houve, portanto, uma altura em que a Sonae entendeu que o jornal devia ser gerido de outra forma. Mas depois já não estava só em causa o modelo de gestão: acabou por ser questionada a configuração do próprio jornal. Um grupo de consultores escoceses defendeu a adopção do modelo de um jornal da Escócia, o “The Scotsman” – com características muito específicas, até por ser um jornal regional. Não fazia sentido.

A partir de certa altura, percebi que já estava a mais. Mas sempre tive uma excelente relação com o engenheiro Belmiro.

 

Sente que, naqueles anos iniciais, nasceu no “Público” uma escola de jornalismo?

Não tenho pretensões nenhu­mas disso. Havia uma ideia de rigor, de independência, de não nos submetermos aos poderes estabelecidos – nomeadamen­te ao poder político. E tentámos singrar com estes princípios. Por outro lado, do ponto de vista da escrita, apelámos à imaginação dos jornalistas: o jornal devia estimular a capacidade criati­va – no sentido de o jornalista não ser um burocrata, de saber contar uma história. Conside­rávamos muito importante a qualidade da escrita, coisa que hoje receio esteja a perder-se, também devido à falta de meios. Tínhamos “copy desk” e agora não há dinheiro para isso.

 

A fórmula do “Público” começa, na verdade, a desenhar-se no “Expresso”, nomeadamente pela equipa que escrevia e editava a Revista do semanário, também dirigida por si. Julgo que tentou inicialmente convencer Francisco Balsemão a fundar algo equiva­lente ao que seria o “Público”…

Sim, tentei. Seria natural que o “Expresso”, mesmo mantendo­-se como semanário, evoluísse para uma edição diária. Mas o Balsemão disse-me que tinha já pedido um estudo, ao Juan Luis Cebrián, do “El País” (que por ironia se tornaria mais tarde, durante um certo período, sócio do “Público”), e que esse estudo dava resultado negativo.

 

Já na altura intuía que o ritmo a que se processava a informação exigia essa resposta?

Absolutamente. Foi isso, repito, que levou à criação do “Público”: sentíamos que a informação não se compadecia com o ritmo se­manal. O que não significa que os semanários não façam sentido. Aliás, com as novas tecnologias, a periodicidade semanal e men­sal funciona hoje talvez mais adequadamente para a imprensa em papel do que os jornais diá­rios. O novo tempo tecnológico condiciona também o tempo da imprensa, com muito poucas excepções a nível internacional. O “New York Times” é o úni­co verdadeiro caso que conheço de um grande jornal com uma enorme tiragem que se mantém sólido. Falo naturalmente dos jornais que conheço, não falo de jornais impressos em línguas que não domino.

 

Assina algum jornal ‘on line’?

Sim. “The Guardian”, que é um jornal excelente e leio desde a minha adolescência. Também “Le Monde”, o “New York Ti­mes” e o “Washington Post”. E já chega…

 

Como observador atento da comunicação social, qual é a maior falha que detecta hoje na informação que consumimos?

Nos jornais, em geral, falta in­vestigação. Refiro-me à inves­tigação verdadeiramente jorna­lística, não à que surge colada à investigação judicial: há jornais que funcionam agora como por­ta-vozes do Ministério Público. Falta um jornalismo que não de­penda do imediatismo absoluto. Falta cada vez mais reportagem, falta retomar o gosto de contar uma boa história e estimular a reflexão sobre ela.

Não quero dizer que eu fa­ria melhor com os meios hoje existentes perante a velocidade actual proporcionada pela in­formação em linha, com os jor­nais digitais, com a imediatici­dade da informação. Mas devia ser feito um esforço no sentido de privilegiar o jornalismo, di­ferenciando-o do imediatismo superficial que tende a desa­guar no vazio. Com mais refle­xão, mais reportagem, mais inquérito. Há excesso de en­trevistas a fulano ou a beltrano que só dizem banalidades.

 

As redes sociais estimulam as notícias falsas?

É inevitável.

 

Acompanha redes sociais?

Não frequento nem cultivo ne­nhuma rede social. Como um tipo que não quer viciar-se numa droga. Não fico condicio­nado por essa avidez, por essa sede imoderada que as pessoas não conseguem controlar.

 

Acontece que os órgãos de in­formação vão hoje muitas vezes atrás das redes sociais e da sua lógica muito específica, que explora o trivial, o irrelevante, o anedótico…

Por isso é que defendo o regres­so à essência do jornalismo, que tende a esquecer-se. Isto cada vez mais se justifica face à onda de superficialidade e ao carácter tóxico das redes sociais que nada tem a ver com informação. Há cada vez mais invenções: as pes­soas já não sabem o que é real e o que é mentira. Isto acaba por ter reflexos na política, em vários países. Em Itália, por exemplo, o movimento Cinco Estrelas [hoje o partido mais votado] começou com um cómico, um humorista. Como se, em Portugal, o Ricar­do Araújo Pereira ou o Herman José fundassem um partido: têm todo o direito a isso, mas não devíamos confundir os géneros.
Infelizmente hoje vivemos num mundo em que tudo cada vez mais se confunde. Já não sabe­mos onde nos situamos nem que terreno pisamos.

 

Os mecanismos de verificação dos factos estão em desuso?

Completamente.

 

Existe uma palavra de ordem implícita: publicar primeiro e verificar depois.

Sim, por causa da correria e da gritaria. Vivemos na gritaria e na correria. Gritaria porque um tipo tem de falar mais alto para ser ouvido. E correria, sem haver tempo para verificar os factos. Portanto a tendência para as no­tícias falsas é cada vez maior.

Repare na ironia disto: quem fala com mais insistência nas ‘fake news’ é o homem que, enquanto Presidente dos Estados Unidos, mais produz ‘fake news’. Al­guém que vive num mundo pa­ralelo, de invenção. Isto é muito preocupante: as pessoas perdem a noção da realidade.

 

Isto também se deve à crescente falta de memória nas redacções dos órgãos de informação?

Sim. Embora o “Público”, quan­do começou, tivesse uma redac­ção bastante jovem. Mas a pres­são era diferente: nessa altura havia a pressão do dia-a-dia, que já era grande; agora há a pressão do minuto, do instante. Claro que não vou remar contra a maré: não podemos evitar as edições ‘on line’. Mas essa febre dos factos e dos olfactos que se desenrola a uma velocidade ab­solutamente desabrida e quase alucinante obriga-nos, em con­traponto, a ter os pés na terra.

 

Isso significa o quê?

Aquilo de que já falámos: com­provar os factos, contar a história. E assegurar o contraditório, algo que se vem perdendo cada vez mais. Muitas vezes – demasiadas vezes – só lemos e ouvimos uma versão, sem contraponto.

 

Como encara este fenómeno tão português de vermos dezenas de políticos no activo a ocupar o espaço mediático, sobretudo nas televisões?

São opções das direcções edi­toriais, talvez para consegui­rem mais audiência. E que é um sintoma da promiscuidade cada vez maior entre o poder político e o poder mediático.

Acho muito bem que os polí­ticos sejam protagonistas em espaços de debate. Mas discor­do de que tenham tribunas onde falam sem contraditório. Isto gera subserviência dos jorna­listas, que ficam de algum modo reféns desses protagonistas da política. Assim o contrapoder auto-dissolve-se.

 

Há sempre um risco de dependência dos jornalistas em relação às fontes…

Sim, esse risco existe sempre. E não é de agora nem existe apenas em Portugal, ao con­trário do que alguns possam supor. Por isso é que a infor­mação deve ser cruzada. Nunca pode ser só uma pessoa a con­tar a história. Esse é o problema das fontes anónimas.

 

Recordo que o “Público” sempre combateu a tendência para a ge­neralização das fontes anónimas – princípio consagrado no seu Livro de Estilo, uma referência na comunicação social portuguesa.

Admitem-se excepções a essa regra em certos casos, mas é sempre preciso saber porquê. Acontece muito, sobretudo no jornalismo político. Por vezes já não sabemos se foi o jorna­lista que, para compor o texto, inventou uma fonte anónima: há textos em que é raro en­contrar alguém a dar a cara por uma declaração.

 

O Eurobarómetro revelou que os portugue­ses são, na União Europeia, quem menos sabe distinguir a mentira e a verdade enquan­to consumidores de notícias. Como encara isto?

É algo que só pode chocar-nos. Como é sabido, sempre tivemos um problema de iliteracia. E agora existe um problema adi­cional, sobretudo ao nível das novas gerações, que navegam num espaço muito à margem da reflexão sobre os acontecimen­tos. É verdade que temos hoje pessoas mais cultivadas do que antigamente – mas também elas, as mais cultivadas, estão intoxicadas pelas redes sociais.

É muito mais fácil, para essas pessoas submetidas à depen­dência tóxica da desinformação ‘on line’, acreditar em teorias da conspiração do que em fac­tos banais e, portanto, desinte­ressantes. Vão-se construindo castelos que alimentam todo o tipo de dúvidas e fomentam os populismos. Isto não afecta só a comunicação social: afec­ta diversos aspectos da nossa vida quotidiana, até na manei­ra como nos relacionamos uns com os outros.

 

Ainda é possível haver empresas de comunicação social financei­ramente sustentáveis?

Acho muito complicado. Portu­gal é um país com um mercado muito escasso.

 

O próprio conceito de informa­ção exclusiva perdeu-se: hoje, na Internet, toda a gente corre o risco de ser plagiada a todo o instante. Vive-se num esquema de pirataria permanente.

Os meios actuais permitem essa pirataria. Numa reportagem, por exemplo: alguém saca aquilo e dá-lhe uma volta, publicando como se fosse dele. Isto ocor­re hoje na própria imprensa de referência. Numa revista presti­giada, como a alemã “Der Spie­gel”, que tem uma apertada rede de controlo editorial e verifica­ção de factos, foi há pouco pu­blicada uma história de grande impacto toda inventada. Aquilo era uma aldrabice. Assinada por um jornalista que já lá se en­contrava há algum tempo e até ganhou prémios. Ninguém está livre desta praga.

 

Acompanha o Presidente da Re­pública quando ele vem defender ajudas concretas do Estado à comunicação social, como recen­temente aconteceu?

Tudo depende de como esse apoio se processar. E só deve englobar órgãos de informação que comprovadamente prestam serviço público.

 

Nem todos prestam?

Nem todos prestam. Mas tam­bém não tenho muita simpatia por aquelas comissões que vão analisar quem cumpre e quem não cumpre serviço público. É preferível que o Estado não se meta nisso.

 

O Estado deve continuar a ser detentor de órgãos de comun­icação social?

Sim, desde que existam condi­ções de independência para evi­tar situações de promiscuidade. Há pessoas que estão à frente de determinados canais ou órgãos públicos que não me parecem ter as qualidades necessárias para o efeito. Gera-se por vezes uma certa lógica de funcionalismo no recrutamento das direcções edi­toriais de alguns órgãos de in­formação públicos. Como prin­cípio geral, preferia que o Estado não fosse proprietário de títulos jornalísticos. Mas reconheço que existe um contraponto quando me apontam o exemplo da BBC. E por essa Europa não faltam bons canais públicos de rádio e televisão. Quanto a jornais, te­nho as maiores dúvidas de que o Estado deva ter algum. Aliás, neste momento, não tem.

O principal, na televisão, é sa­ber se a orientação e a prática obedecem a critérios consen­suais no cumprimento do servi­ço público. Nos jornais, admito apoios ao nível da isenção fiscal. Mas também não considero que todos mereçam isso: só, de fac­to, aqueles que seguem critérios dignos de ser considerados ser­viço público. Para ser concreto, acho que o “Público” presta ser­viço público e o “Correio da Ma­nhã” não presta serviço público.

 

Devia haver mais auto-regulação no sector, passando nomea­damente pela criação de uma Ordem de Jornalistas?

Não gosto muito de estrutu­ras corporativas. Nunca gostei. E a palavra ordem faz-me al­guma espécie. Mas, por outro lado, também acho que faz falta uma entidade… por acaso exis­te uma Entidade Reguladora da Comunicação Social, mas que é muito politizada.

Embora não goste muito da pa­lavra, talvez fosse melhor existir uma Ordem do que não existir. Porque há, de facto, uma gran­de confusão que por vezes tende a alastrar de forma assustadora.

 

É possível haver uma democracia sã tendo uma comunicação social doente?

Isso não. Impossível.

 

Mas é um risco real…

Uma das razões que levam ao fervilhar dos populismos é pre­cisamente quando uma grande parte da comunicação social se torna instrumento do poder político ou de quaisquer ou­tros poderes. Quando digo que o “New York Times” é o único jornal que de uma forma óbvia, consistente, pode existir por si próprio, isto dá-nos um ce­nário dramático. Em Inglater­ra, já falámos do “Guardian”, que teve de arranjar uma fun­dação para subsistir – é uma fórmula possível.

 

Uma fórmula para a qual o leitor também contribui.

Exactamente. As pessoas que querem informação indepen­dente contribuem para isso. É o que eu procuro fazer também, como assinante do “Guardian”.

 

Existe em Portugal o risco do aparecimento de um político populista como emanação das redes sociais, como tem acon­tecido em países tão diferentes como Itália ou Brasil?

Não estou a ver que isso possa ir muito longe, embora existam fenómenos que possam poten­ciar um cenário desses. Repare por exemplo, no espaço que o futebol ocupa nas televisões. Eu gosto muito de futebol, sou insuspeito. Adoro futebol. Mas o futebol é servido como se fos­se um produto tóxico, como as redes sociais. E entra-se num círculo vicioso: como aquele faz assim e é mais visto, eu tenho de dar também. Basta lembrar a novela do Bruno de Carvalho, que misturava o futebol com um “fait divers” demencial. Assim se gerou um fenómeno absolutamente tonitruante.

 

Hoje um político como o Presi­dente dos EUA, Donald Trump, garante dispensar a mediação dos jornalistas porque através do Twitter consegue comunicar directamente com leitores e elei­tores, tendo milhões de “seguido­res” em todo o mundo. Estará o jornalismo condenado à extinção?

Apesar de tudo, ainda acredito nos contrapoderes. E acredito que as pessoas sentirão sempre necessidade de uma informa­ção credível. Repare no Brexit, que resulta de um caso exem­plar de desinformação. Como é possível que eles não tenham reflectido sobre as consequên­cias daquele referendo?

Não quero parecer demasiado pessimista, mas sinto por vezes que estamos a viver um tem­po em que parecemos caminhar para o abismo, um pouco como aqueles políticos sonâmbulos que deram origem à I Guerra Mundial: foram rumando nes­sa direcção e só se aperceberam disso quando já estavam dentro do abismo.

 

Da edição n.º 11 do DIA15

Mais Notícias
Comentários
Loading...

Multipublicações

Marketeer
Chefs portugueses aceitam desafio internacional
Automonitor
Bentley: 4 modelos icónicos