«As taxas turísticas deviam ser usadas no património»

Não há memória recente na Europa de uma perda patrimonial como a da Catedral de Notre-Dame, consumida pelas chamas em Abril deste ano. Mas e se fosse o Mosteiro dos Jerónimos a arder? Ou o da Batalha? Ou o Panteão Nacional? Haverá planos para salvaguardar os monumentos nacionais de tamanha catástrofe?

Francisco José Viegas, ex-secretário de Esta­do da Cultura, jornalis­ta, escritor e editor, foi categórico: «não é possível es­tar preparado, porque ninguém está.» O que não invalida que teça duras críticas à desvalori­zação dos nossos símbolos na­cionais. Na sua opinião, mutas das taxas turísticas municipais são genérica e politicamente fraudulentas, porque deviam ser canalizadas para a recuperação e protecção do património.

 

Estará Portugal preparado para uma resposta a uma situação se­melhante à ocorrida com o incên­dio de Notre-Dame?

Não, porque ninguém está. Na sequência do incêndio ouvi os maiores disparates sobre essa matéria, sobretudo ditos por pessoas com responsabilidade mediática mas com pouca inti­midade com o património, que pareciam acreditar que era pos­sível proteger a 100% edifícios com cinco, seis e mais séculos. Ou com dois ou três. Porque a verdade é que ninguém está real­mente preparado, totalmente preparado, e isso nem tem a ver com a chegada de meios, com os cuidados a ter ou com o acesso ao edifício. Especialmente Portugal.

 

Porquê Portugal?

Porque é, provavelmente, um caso único na Europa — nos últi­mos dois séculos não houve guer­ras nem catástrofes que levassem à destruição de património edi­ficado. Por isso temos um vasto património, um grande número de edifícios históricos, e até uma grande rede de ruínas que a opi­nião pública desvaloriza. Acon­tece que essa opinião pública só agora presta atenção devida ao papel do património no turismo e na economia, o que é muito tar­de. Porque quem devia, de facto, contribuir para pagar uma parte substancial do restauro, conser­vação e manutenção do patrimó­nio deviam ser as estruturas da economia e do turismo — e não apenas o orçamento da Cultura ou do proprietário de grande par­te dos edifícios, o ministério das Finanças. Um dia eu disse isto, ia vindo o mundo abaixo. Vejo por aí muitas taxas turísticas munici­pais, que deviam ser canalizadas para a recuperação e protecção do património, e são utilizadas para despesas gerais e projectos dos municípios. São taxas gené­rica e politicamente fraudulentas, porque deviam ser utilizadas, na maior parte, no património.

 

Na sua opinião, em caso de ca­tástrofe, qual a prioridade: sal­var os visitantes, as relíquias ou o monumento?

Talvez por essa ordem, sim. Mas cada catástrofe é uma catástrofe. As pessoas sempre em primeiro lugar, de qualquer modo.

 

Temos um risco sísmico elevado capaz de levar a uma sucessão de eventos catastróficos. Há pla­nos específicos para salvaguar­dar os monumentos nacionais? A haver, porque não são estes tornados públicos?

Os planos para os monumentos nacionais estão integrados em planos mais gerais. Mas há um ponto que é importante nesta matéria: temos excelentes téc­nicos de património a trabalhar entre nós, embora eu ache que precisem de regulamentos mais flexíveis que lhes dêem mais margem e autonomia. Se não são tornados públicos é porque não existem, parece-me.

 

Parafraseando George Harrison, o “Beatle quieto”, «tudo se extin­gue. É a ordem natural das coisas. E a história confirma-o. Repetida­mente». Concorda com esta visão? Colocando a questão de outra for­ma, se um monumento cair, deve­mos recuperá-lo?

Depende sempre, mas diante da ruína total não me parece. O tempo é o que é, uma passagem. Sou um conservador — no sen­tido pleno da palavra —, não um reaccionário. Há uma dignidade a descobrir e a valorizar na ruína.

 

Num cenário de reconstrução, defende que se respeite o traça­do antigo ou que se aproveite a oportunidade para modernizar o monumento?

Os monumentos — edifícios de natureza religiosa ou não — não nos são legados como expressão de um tempo imóvel. São o resul­tado de diversas intervenções. A Notre-Dame como nós a conhece­mos, por exemplo, foi o resultado de várias camadas de intervenção. Hoje procede-se a essa “moderni­zação”, com sensatez, equilíbrio — e com a colaboração de histo­riadores, técnicos e arquitectos.

 

Face às acesas reacções nas re­des sociais quando se soube das avultadas doações para recu­perar a catedral parisiense, na sua opinião, ao invés de salvar monumentos, erguem-se valores mais altos?

São níveis muito diferentes.

 

A acontecer semelhante desastre em Portugal, haveria pessoas a contribuir para a reconstrução de um edifício histórico? Os portu­gueses têm hábitos de filantropia?

Não e isso é escandaloso. Não há um sentido da função social da riqueza. Os ricos portugue­ses não estão sensibilizados para essa dimensão ética e so­cial do dinheiro que possuem, no sentido em que a riqueza só tem sentido se for bem utiliza­da. Nos EUA e em Inglaterra, por exemplo, há muitas “cha­rities” que se dedicam à pro­tecção do património e para a qual os ricos contribuem bas­tante, como devem. Tal como para a música, para a educação artística ou para a criação de bolsas de estudo. Pessoalmen­te, desgosta-me muito a falta de visão dos nossos ricos — que parecem contentar-se com a posição de “ricaços”… Ou que usam muito a sua influência e poder para tentar obter ainda mais dinheiro do Estado, mas que se recusam a pôr dinheiro seu ao serviço da comunidade, do tempo e da cultura. Não são generosos, claro, mas sobre­tudo não são inteligentes. Na minha cidade de província, há muitos anos, havia uma famí­lia de ourives que patrocinou trabalhos de museu e criou um prémio no liceu para os melho­res alunos. Não há isso hoje. Os ricos ficaram muito mais tolos com esta democracia. Não per­cebem para que serve o dinhei­ro além da máquina de mul­tiplicar poder. O Estado devia criar leis para beneficiar filan­tropos verdadeiros.

 

Os monumentos nacionais são muito mais procurados por es­trangeiros do que por cidadãos nacionais, segundo a EGEAC e a Direcção-Geral do Património Cul­tural. Uma explicação pode ser o crescimento do turismo. Mas, na sua perspectiva, a que se deverá esta baixa participação cultural dos portugueses em geral?

Aos portugueses. Sobretudo à falta de uma educação para o património e para a cultura. Ou­tro dia fui ao Convento de Cristo, onde vou frequentemente para matar saudades da beleza, e cerca de 90% dos visitantes eram es­trangeiros. Bom, não pode haver portugueses permanentemente, mas na zona da charola, durante uma boa meia hora, não entrou nenhum português. Era domingo. Isto não tem a ver com os preços da entrada, nem com as chama­das “políticas sociais”. Tem a ver com a falta de educação para o património e com a sobreva­lorização do contemporâneo. O que é uma pena, dada a riqueza do património edificado que te­mos. Uma ideia seria favorecer a criação de mecenas e padrinhos privados (ou públicos, tanto faz, desde que funcione) para a pro­tecção dos núcleos patrimoniais. Responsabilizar a chamada “so­ciedade civil” pelo bem-estar dos monumentos nacionais. Não cabe na cabeça de nenhum país decen­te ter os seus símbolos nacionais em mau estado, desprotegidos, maltratados ou abandonados.

 

Dito isso, como contrariar essa falta de interesse pelo património histórico?

Investindo — como agora se diz — nesse domínio da educação para a cultura, a sensibilidade, o conhecimento do património. Infelizmente, está a fazer-se o caminho inverso, desvalorizando o ensino da história, da literatura e do passado. Talvez seja neces­sário divulgar ainda mais o pa­trimónio, incentivar (ainda mais) as visitas escolares aos principais lugares da nossa história, dotar a Direcção-Geral do Património Cultural de meios mais signifi­cativos para a criação de redes nacionais e interregionais.

 

Sendo o património cultural um motor do desenvolvimento eco­nómico, como se explica que a maioria dos museus não tenha sequer planos de evacuação dos acervos e colecções? Na sua opi­nião, trata-se de incúria, de falta de meios financeiros ou de ausên­cia de visão estratégica?

Falta de meios e de autoridade.

 

Segundo a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, aliado à falta de meios financeiros, há também pouca formação e articulação en­tre os sapadores, a protecção civil e as entidades responsáveis pelo património. Um bombeiro não sabe o que resgatar primeiro, não sabe como retirar e transportar as peças. Como resolver esta falha?

A Isabel tem alguma razão. São necessários regulamentos que prevejam essas falhas, o que é muito urgente no país que as­sistiu aos incêndios de Pedró­gão e que assiste à descoorde­nação dos meios mais básicos da protecção civil. Se há gente que aqui nunca culparei são os técnicos e as chefias do Pa­trimónio. Nós temos na Direc­ção do Património uma pessoa excelente, muito competente e desembaraçada, a arquitec­ta Paula Silva, que merece todo o apoio. Infelizmente, quando se trata de pensar os dinheiros da cultura, toda a gente sabe que as pedras não choramin­gam, não vão dar beijinhos nos almoços de campanha eleito­ral, nem fazem chantagem com os políticos. Precisam que nós as defendamos.

 

Da edição n.º 13 do DIA15

Mais Notícias
Comentários
Loading...

Multipublicações

Marketeer
Chefs portugueses aceitam desafio internacional
Automonitor
Bentley: 4 modelos icónicos