Brasil e Portugal na nova ordem mundial

O que vimos desde o final da II Grande Guerra foi um mundo em que, de modo geral, o multilateralismo, a cooperação e a diplomacia estavam na ordem do dia da principal potência do mundo, os EUA.

Em particular nas suas relações com os principais aliados, notadamente a União Europeia. Parece que não será mais assim. Donald Trump como principal líder do Ocidente veio mudar esse processo. Ele deve ter lá suas razões, como a emergência da China como grande potência comercial e em breve tecnológica e militar, através do seu plano Made in China 2025. Mas o curso de ação que vem tomando está contra o que talvez tenha sido o grande movimento da segunda metade do século XX. Movimento de grande sucesso já que impediu durante 70 anos uma guerra entre França e Alemanha, coisa corriqueira desde a formação da Alemanha na segunda metade do século XIX. Não será mais assim. Agora o bilateralismo, o isolacionismo e a força deverão ser a norma nas relações entre os EUA e seus aliados. E não há muito que Brasil e Portugal, atores coadjuvantes na cena global, possam fazer para mudar isso. Mas aprender a conviver com essa nova realidade e tirar algum proveito dela pode ser um bom caminho a seguir.

Nenhuma das duas economias se destaca concomitantemente pela sua abertura para o exterior, inovação e tamanho. Mas o Brasil é grande, é a 9.ª maior economia do mundo enquanto Portugal é a 47.ª. Portugal apresenta mais inovação sendo a 30.ª economia mais inovadora segundo a Bloomberg, enquanto o Brasil não é nem citado no ranking, e também Portugal tem uma grande abertura para o exterior, com um índice de 60% (importações + exportações / PIB) contra 18% do Brasil. Economias distintas e talvez complementares, principalmente nessa nova ordem mundial. O fluxo comercial entre os dois países é muito pequeno. De janeiro a junho deste ano Portugal importou € 600 milhões do Brasil, sendo que 55% referem-se a minerais e similares e 4% a maquinaria. Já do outro lado, o Brasil importou de Portugal € 400 milhões, sendo que 45% desse volume vem de azeite, vinho e bacalhau e 16% de maquinaria e similares. Esses números representam menos de 1% dos negócios de cada um dos países. Números insignificantes frente aos nossos laços históricos. Pior, o Brasil nem aparece como um dos destinos mais importantes das exportações portuguesas, e  Portugal também não é um destino relevante para os produtos brasileiros. Isso pode mudar.

Aproximadamente 25% da população do Brasil, ou 50 milhões de pessoas, tem renda superior a € 18.000 por ano. Isso é mais que toda a população da Espanha, que é o principal destino das exportações portuguesas. E a renda per capita anual em Portugal chega a € 26.000.

Portugal pode oferecer inúmeras vantagens aos brasileiros, incluindo seus portos. Já há iniciativas nesse sentido pois Portugal permite o acesso a cadeias logísticas mais eficientes no transporte de bens para a Europa. Portugal também pode ser um mercado consumidor para produtos brasileiros, a depender de acordos bilaterais e também da simplificação dos processos comerciais no Brasil, fator fundamental para integrá-lo nessa nova ordem mundial.

Mas além do comércio de produtos também temos que ter cooperação em outros ambientes, como o desenvolvimento de tecnologias. Portugal tem 20 parques tecnológicos geograficamente dispersos pelo país. O Brasil tem perto de 100, também geograficamente dispersos, o que é uma surpresa, dada a hegemonia do sudeste em termos de desenvolvimento. E esses polos desenvolvem pesquisas de ponta, e muitos deles estão intimamente associados a empresas e governos. Esses nichos de tecnologia devem se tornar instrumentos da independência tecnológica dos dois países. Se não caminharmos nesse sentido, nosso destino será o de uma enorme dependência da China. Afinal, o país do Oriente, no seu programa Made in China 2025, se propõe a ser um grande centro tecnológico, o que até já é. Mas vai, mais e mais, ampliar sua presença nesse setor fundamental nas economias modernas.

Também em termos de investimento direto há muito que crescer. O Brasil participa com menos de 3% do volume total de investimento estrangeiro em Portugal, com € 3 bilhões, enquanto Portugal tem € 2,8 bilhões investidos no Brasil, representando 0,3% do total de investimentos estrangeiros no Brasil. Há muito que crescer.

O fluxo turístico é grande. Mais de 170 mil portugueses visitam o Brasil todos os anos, e quase 600 mil brasileiros fazem o caminho inverso. Mas esses números representam pouco para os dois lados, algo em torno dos 3% do número de visitantes em ambos os países. Também há muito que crescer.

Então, se o novo maestro do mundo propõe bilateralismo, temos que rapidamente nos adaptar. Do lado português, a presença na CEE é um trunfo que deve ser aproveitado pelo Brasil; já do lado brasileiro, há que flexibilizar as regras do Mercosul, que mais tem sido um entrave para o Brasil nas negociações multilaterais que um incentivo. O recente fracasso nas negociações Mercosul CEE, que se arrastam há 20 anos, é um indicador claro dos problemas que a associação de países na América do Sul causa ao Brasil. No mundo bilateral, todo tipo de associação multilateral tem que ser muito benéfica para seus membros; de outra forma, é melhor renegociar seus termos.

Em resumo, novas orquestras trazem novos ritmos. E cabe aos dançarinos se adaptarem, para não ficarem fora do baile. Brasil e Portugal têm muitos pontos de conexão, a começar por séculos de conexão histórica, mas nossas relações comerciais, turísticas e tecnológicas são pequenas. Há que incrementá-las.

Da edição nº 4 do Dia 15

Mais Notícias
Comentários