Britânicos e europeus em conversa de surdos

Bruxelas recebeu a primeira-ministra britânica com grande cepticismo sobre eventuais alterações ao mecanismo de salvaguarda irlandês.

A primeira-ministra Theresa May chegou esta quinta-feira a Bruxelas, para tentar convencer os dirigentes europeus a negociar uma alteração ao acordo negociado entre UE e britânicos sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. May será recebida pelo presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, e pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk (na imagem), que na véspera do encontro fez um dos comentários mais violentos de um dirigente comunitário ao processo de negociações.

«Tenho-me questionado como será o lugar especial no inferno reservado àqueles que promoveram o Brexit sem terem sequer o esboço de um plano para realizá-lo em segurança», declarou Tusk na quarta-feira. A frase gerou forte controvérsia em Londres, com acusações de que o dirigente não respeitava decisões soberanas do eleitorado e dos políticos eleitos.

Antecipando uma conversa difícil, e antes de chegar a Bruxelas, Theresa May garantiu que o Reino Unido não «ficará preso no backstop», o mecanismo que, em caso de não haver acordo comercial final entre as duas partes, seria accionado para garantir que não haverá fronteira entre as duas irlandas (desenvolvimento que, na prática, torpedeava o Acordo de Paz de Sexta-feira Santa, assinado em 1998 e que pôs fim ao conflito na Irlanda do Norte).

Na sua actual configuração, o backstop é inaceitável para o Parlamento britânico e a primeira-ministra foi mandatada para o renegociar. O acordo entre europeus e britânicos prevê um período de transição de dois anos e meio, após o Brexit, para negociar um novo tratado de comércio entre os dois lados. Caso o acordo não fosse alcançado, o backstop entrava automaticamente em vigor: a Irlanda do Norte mantinha-se sob as regras do mercado único e o Reino Unido ficaria numa união aduaneira com a UE (cumprindo a legislação sem direito a voto). O perigo de divisão do país levou os defensores do Brexit a dizer que este arranjo era pior do que ficar na União.

Nos últimos dias, todos os dirigentes europeus repetiram em público que a renegociação do acordo é impossível e que May se podia poupar a deslocação. Por outro lado, também é evidente que sem uma renegociação do mecanismo irlandês, o Reino Unido fica perigosamente perto de uma saída sem acordo dentro de apenas 50 dias.

Se as negociações acabarem hoje, o Parlamento britânico tomará uma decisão final e aparentemente não há maioria para nenhum cenário (nesse caso, por lei, o Reino Unido sai da UE a 29 de Março).

O líder da oposição, Jeremy Corbyn, enviou uma carta à primeira-ministra com uma proposta de conciliação. O Partido Trabalhista apoiará May num acordo de Brexit caso este inclua uma união aduaneira alinhada com as regras europeias, que permita a Londres fazer acordos comerciais com outros países. Esta proposta exclui definitivamente a possibilidade de segundo referendo, ao mesmo tempo que evita a saída descontrolada, no entanto parece excessivamente optimista, ao juntar duas coisas incompatíveis: união aduaneira com os europeus e negociação de acordos de comércio com outros países.

Uma eventual saída sem acordo a 29 de Março teria um impacto económico catastrófico para alguns países, sobretudo para a Irlanda.

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