Costa, o secretário-geral do PS que embirra com socialistas

Não sei se com razão ou falta dela, mas parece-me evidente que o Dr. Costa não gosta de socialistas. Vejamos. O Dr. Tozé Seguro era militante do PS ou não era? Era, coitado. E o Eng. Sócrates? Também era.

Pois o Dr. Costa não só o renegou como, antes disso, só para o arreliar, foi ao Estabelecimento Prisional de Évora visitá-lo com aquele casaco em tons de verde, aos quadrados, que o Dr. Costa usa nos momentos em que se sente desconfortável com o passado. E a Dra. Maria de Belém não está ainda a pagar as dívidas da candidatura presidencial em que o Dr. Costa apoiou o Dr. Nóvoa? Pois está. E não é socialista? É. Ah que não é bem assim, que o Dr. Costa levou socialistas para o governo. Pois foi. E lá está. Mais uma prova. A pobre da Ministra Vitorino, como se não lhe bastasse aturar o marido em casa, ainda tem que levar com o Ministro Cabrita nas reuniões do Executivo. No cenário hipotético de vosselências estarem casadas com o Ministro Cabrita, gostavam de ainda ter de levar com ele no trabalho? É o que eu digo. E, já agora, quem foi que convidou o Dr. Carlos César para Presidente do PS, quem foi? O Dr. Costa, naturalmente. Vosselências gostavam de pertencer a uma organização presidida pelo Dr. Carlos César? Pois claro que não gostavam. O Dr. Costa faz tudo, tudo, para lixar os socialistas. Se dúvidas houvesse, bastaria atentar na forma como o Dr. Costa discursa sempre que está em reuniões do partido. É nos congressos, é nas comissões políticas, é nos comícios, é em todo o lado onde o Dr. Costa for submetido à provação de falar para mais de dois socialistas. Reparem como nessas alturas o homem está sempre zangado. Berra, ulula, vocifera. Perante terríveis desgraças, o Dr. Costa apresenta invariavelmente um sorrisinho. Salvo, claro, se estiver num encontro do PS. Nesse caso, amofina-se-nos. Sobe-lhe a mostarda ao nariz, fica-nos com os azeites. Pode estar a anunciar as maiores maravilhas, o aumento de cinquenta cêntimos aos pensionistas, o investimento estratosférico em mais quinze enfermeiros para o Sistema Nacional de Saúde, eu sei lá. Mas é sempre como se estivesse com prisão de ventre ou tivesse batido com o dedo pequeno do pé na perna de uma mesa. Repare-se na ‘rentrée’ dos socialistas. O PS organizou um comboio para transportar os militantes entre Pinhal Novo e Caminha. Viste-o no comboio? Nem eu. O Dr. Costa preferiu ir de véspera à xaropada do Festival de Vilar de Mouros só para não ter de se cruzar com os camaradas antes de tempo. Mas nem assim o Dr. Costa conseguiu controlar os maus fígados provocados pela presença de socialistas. No dia seguinte, estavam ali os militantes aos gritos no comício, PS, PS, Costa, Costa, Costa, queremos mais cunhas, queremos mais tachos, queremos mais assessores e directores-gerais, ou lá o que aquela gente berra nos ajuntamentos do PS, e o homem, furioso, de trombas, decidiu prometer uma redução do IRS de 50% para os portugueses que emigraram até 2015. Repare-se como a embirração com os socialistas leva o Dr. Costa aos actos mais diabólicos. A maior parte dos que ali estavam, tirando um ou outro emigrante atraído por engano pelo cheiro a bifanas, são dos que ficaram, dos que alombaram com a troika, dos que, Deus lhes perdoe, colaram cartazes com a cara do Dr. Costa, dos que foram, inclusivamente, ao Congresso de Matosinhos dar 93% dos votos ao Eng. Sócrates depois da bancarrota. E o que faz o Dr. Costa? Pois o Dr. Costa, enxofrado, diz-lhes olhos nos olhos: vocês, cambada de tansos, digo, cambada de camaradas tansos, vocês que ficaram, vão continuar a pagar os impostozinhos todos aqui ao Costa: o das varandas viradas para o Sol, os dos combustíveis, o do sal, o do açúcar, o do camandro e o mais que o Centeno se lembrar e, para aprenderem, o IRS todinho. Agora, aplaudam a medida aqui do Costa. E os tansos camaradas, digo, camaradas tansos, aplaudiram. Note-se que o Dr. Costa não se deteve sequer perante argumentos de inconstitucionalidade ou violações do princípio da igualdade. O Dr. Costa queria a todo o custo atazanar os socialistas que ali estavam e não olhou a meios. Agora, que o Dr. Costa não vá à bola com socialistas e aproveite todas as ocasiões para os vexar, é lá entre eles. O que já não parece correcto é prejudicar terceiros. Vamos que há, entre os portugueses que emigraram, um ou outro que se deixa enganar e que regressa por causa da redução temporária do IRS. Ah e tal que não há quem caia numa coisa dessas. Não é bem assim. Há sempre espíritos mais frágeis que se deixam enrolar. No fundo, na ânsia de aperrear os socialistas presentes em Caminha, o que o Dr. Costa propôs aos portugueses emigrados até 2015 é uma daquelas estratégias típicas dos esquemas de ‘time-sharing’: estás a entrar no campismo de Portimão na tua auto-caravana, com a patroa, os miúdos, a namorada do mais velho que trabalha no Lidl, o cão e a tua sogra, convidam-te para passar uma tarde grátis num ‘resort’ mal-amanhado na Praia da Rocha, enfiam-te um chapéu de palha na cabeça e uma caipirinha pela goela abaixo e, quando dás por ela, tens com uma caneta na mão para assinar um contrato Vip Gold por 30 anos, relativo à utilização na primeira semana de Maio de uma fracção virada a norte, no rés-do-chão, sem direito a utilização de garagem e com um aspirador de oferta. Ora aqui é a mesma coisa. Os desgraçados que caírem na esparrela estarão a “poupar” uns cêntimos no IRS durante um par de anos para, ao mesmo tempo, entregarem ao Dr. Costa uma cabazada de impostos indirectos, contribuições para a Segurança Social, taxas para o audiovisual, comparticipação para as eólicas, IMI em tranches ou em fatias e calhando, um dia destes, direito de pernada. Ninguém merece. Mesmo que se trate de emigrantes socialistas.

Da edição nº 5 do Dia 15

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