Direitas espanholas exigem eleições antecipadas

PP, Ciudadanos e Vox somam 53% nas sondagens e querem derrubar o governo minoritário de Pedro Sánchez, que depende do apoio dos independentistas catalães.

O líder do Partido Popular, Pablo Casado, afirmou a uma rádio espanhola que o êxito da manifestação da direita no domingo, em Madrid, justifica uma moção de censura ao governo socialista e a convocação de eleições antecipadas até Agosto. A viabilidade da moção não é clara, pois os centristas do Ciudadanos e os nacionalistas bascos do PNV não querem apoiar a iniciativa.

Populares e Centristas estiveram juntos na manifestação de domingo, à qual se associou um partido nacionalista, o Vox. Esta formação, saudosista da era de Franco, não dispõe de representação parlamentar, mas irrompeu como um míssil na política espanhola e está muito confortável nas sondagens. Os números da manifestação são contraditórios: as autoridades falam em 45 mil pessoas, mas é claro que este número subestima a realidade (os organizadores referem a presença de pelo menos 200 mil pessoas).

As direitas saíram à rua para exigir a demissão do primeiro-ministro Pedro Sánchez, acusado de comprometer a unidade de Espanha para salvar o seu governo minoritário. O líder do PSOE assumiu a governação em Junho do ano passado, ao derrubar o Executivo (também minoritário) do PP, com uma moção de censura que obteve o apoio crucial da esquerda e dos partidos regionalistas, incluindo dos catalães.

Sánchez depende dos independentistas e tem a sua legitimidade fragilizada pelo facto de ter ficado em segundo lugar nas legislativas de 2016. Em teoria, pode manter-se até 2020, mas terá de negociar já esta quarta-feira com os catalães para aprovar o orçamento. Para pressionar os catalães a votar a favor do seu orçamento, Sánchez admitiu na segunda-feira marcar eleições antecipadas para 14 de Abril.

A fúria da direita foi desencadeada na sequência de iniciativas de Madrid vistas como cedências aos independentistas, sobretudo o polémico anúncio de que haveria um «mediador» governamental nas negociações entre partidos catalães.

As negociações sobre o orçamento foram suspensas e o presidente do governo catalão, Quim Torra, não parece disposto a facilitar a vida ao primeiro-ministro espanhol. Em troca de negociar com Madrid, o soberanista impõe condições: que seja aceite a ideia do mediador e que não haja detenções dos membros dos comités de defesa da república. Para apoiar o orçamento, os catalães querem poder falar de autodeterminação. Se aceitar estas condições, o governo estará a favorecer o crescimento do voto à direita. A partir daqui, só parece haver dois cenários: os independentistas suavizam as suas exigências ou as negociações ficam suspensas e haverá eleições antecipadas.

Para agravar a situação, começa na terça-feira o julgamento dos líderes que dirigiram a tentativa de independência que levou ao referendo inconstitucional de 2017.

As sondagens indicam que no último ano houve uma alteração significativa nas intenções de voto. Os dois grandes partidos da democracia (PSOE e PP) são hoje uma sombra do passado. Se houvesse eleições amanhã, teriam 24% e 21% dos votos, respectivamente, metade do que tiveram por tradição. A paisagem política parece estar fragmentada em cinco formações. PP e Ciudadanos, juntos, somavam 46% quando Sánchez assumiu o poder, em Junho de 2018. A soma PSOE e Podemos era de 44%. A direita tem agora 42% e a esquerda 37%.

Ora, o Vox tinha pouco mais de 2% das intenções de voto em Junho, aparece agora nos inquéritos com 11%. A soma dos três partidos de direita passou para 53 pontos. Esta enorme deslocação de votos já permitiu a PP e Ciudadanos formar governo na Andaluzia, com apoio parlamentar do Vox. As três direitas espanholas não somam apenas multidões nas ruas de Madrid, mas venceriam facilmente eleições.

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