Efeméride | A queda de Salazar. Quando o Estado Novo chegou a velho

Faz agora meio século, um acidente vascular cerebral punha fim a 40 anos de carreira política de Salazar. Anunciava-se o crepúsculo do regime inaugurado em 1926 que instalara, em Portugal, a mais longa ditadura europeia numa altura em que o País mantinha três frentes de guerra em África.

A remodelação governamental estava enfim anunciada, após três meses de profundas especulações nos bastidores do regime. Seria a última da longa carreira política de António Oliveira Salazar, que em Abril completara 40 anos ininterruptos de presença no Executivo – primeiro como ministro das Finanças dotado de plenos poderes pela ditadura militar, depois como chefe incontestado do regime a que ele próprio chamou Estado Novo. E que naquele turbulento ano de 1968, já estava irremediavelmente velho. Faz agora meio século. A posse dos novos ministros ocorreu a 19 de Agosto. Gonçalves Rapazote substituía Santos Júnior no Interior – actual Ministério da Administração Interna. João Dias Rosas (tio do historiador Fernando Rosas) assumia a pasta das Finanças. Joaquim Jesus Santos entrava para a Saúde. O engenheiro Canto Moniz, que se distinguira na construção da ponte sobre o Tejo, ocupava a pasta das Comunicações. José Hermano Saraiva, anos depois célebre como historiador e autor de programas televisivos, era o novo ministro da Educação Nacional. Havia ainda novidades nas pastas militares – originalidade do regime saído do golpe castrense de 28 de Maio de 1926: o general Bettencourt Rodrigues tornava-se ministro do Exército e o almirante Pereira Crespo era designado ministro da Marinha. Os restantes mantinham-se, prova inequívoca de que a capacidade de recrutamento de Salazar se esgotara: Alberto Franco Nogueira nos Negócios Estrangeiros, o general Gomes de Araújo na Defesa, Silva Cunha no Ultramar, Machado Vaz nas Obras Públicas, Correia de Oliveira na Economia, Mário Júlio Almeida Costa na Justiça, Gonçalves de Proença nas Corporações e Previdência Social.

Último turno
Segundo relatou anos depois Franco Nogueira, o principal biógrafo de Salazar, o próprio Presidente da República, Américo Thomaz, terá demonstrado franco desagrado quando tomou conhecimento do novo elenco governativo. «Deve ser, é de certeza, cada vez mais cavado o abismo entre Thomaz e Salazar», anota o titular dos Negócios Estrangeiros no seu diário, com data de 27 de Agosto de 1968. E a 3 de Setembro, citando o seu antecessor naquela pasta, Marcelo Mathias: «O Presidente Thomaz está de cabeça perdida com o Dr. Salazar.» Queixava-se de ser marginalizado, o presidente do Conselho de Ministros mal lhe dava nota da condução dos assuntos do País e das questões militares nas três frentes de guerra que Portugal enfrentava nos seus territórios africanos.
O próprio Franco Nogueira, incondicional de Salazar, desabafava no diário, a 17 de Agosto: «Este elenco ministerial parece muito sobre o fraco. Verdadeiramente, tem um sabor de último turno. E por razões simplesmente naturais tudo indica que será.»

O regime inaugurado em 1926 e o seu principal mentor viviam tempos crepusculares num mundo em convulsão: em Janeiro daquele ano a guerrilha comunista norte-vietnamita estivera às portas de Saigão na ofensiva do Tet, a França do general De Gaulle tremera em Maio com a explosão estudantil, os EUA choravam os assassínios de Martin Luther King (em Abril) e Robert Kennedy (em Junho), naquele mesmo mês de Agosto os blindados do Pacto de Varsóvia ocupavam Praga, pondo um brutal termo à experiência de “socialismo de rosto humano” ensaiada por Alexander Dubcek na monolítica Cortina de Ferro.

Neste cenário, Portugal parecia congelado no tempo. «Observadores de um e outro quadrante político comentam friamente: não há que ter espanto: que homem novo e de valor se quer comprometer, a título pessoal, com um chefe político que passou os 79 anos? Exprime o desagrado de muitos o Presidente Thomaz. Diz aos seus íntimos, com voz e gesto de quem julga inconcebível um facto: “Este governo! Este governo, meu Deus!”» Palavras do insuspeito Franco Nogueira, no último volume da biografia de Salazar, intitulado “O Último Combate”.

O tombo da cadeira
O que a política não resolvia, por absoluta incapacidade do regime para forjar vias alternativas, acabou por ser solucionado pela simples intervenção da natureza. A saúde do autocrata era um tema tabu naqueles tempos de imprensa severamente vigiada pelo olhar da censura. Mas quem frequentava os corredores do poder não ignorava o declínio das faculdades mentais do chefe do Governo – tornadas evidentes antes do seu célebre tombo, ao procurar sentar-se numa cadeira desmontável no Forte de Santo António da Barra, no Estoril.
Dois meses antes deste episódio, que passou à história como “a queda de Salazar”, prenunciando o seu fim político, registou-se um facto – na altura sem notícia pública, por motivos óbvios – bem revelador do início da incapacidade mental do homem que fora empossado como chefe do Governo português no distante dia 5 de Julho de 1932.
«Salazar está muito pálido, esmorecido, e repete ao Conselho [de Ministros] as mesmas coisas que dissera anteriormente [na véspera] como se fossem inteiramente novas. Mesmas minúcias, mesmos comentários, mesma narrativa do desenrolar dos acontecimentos, como se tudo fosse novidade para o Conselho. Tenho uma estranha sensação de mal-estar e de angústia: o sentimento de que, sem que se trocasse uma palavra entre os ministros, alguma coisa de muito importante se passava. Há uma clara perturbação mental no chefe do Governo.»
Palavras de Franco Nogueira, testemunha directa do acontecimento, naquele dia 12 de Junho de 1968 e mais tarde reproduzidas no seu diário político, intitulado “Um Político Confessa-se”.
No último volume da biografia, Nogueira menciona outro episódio, ocorrido a 6 de Agosto – cinco dias após o tombo da cadeira. Em conversa telefónica com Salazar, a propósito de um problema relacionado com a Tanzânia, cujo presidente era Julius Nyerere, o chefe do Governo alterou-lhe o apelido, chamando-lhe Nimeyer (o famoso arquitecto brasileiro). «Eu corrigi para Nyerere. Salazar disse: “Tem razão, ah! Esta minha cabeça!” Continua a conversa. Salazar volta a dizer Nimeyer. Torno a corrigir. Mesma reacção de Salazar. Depois, mais três vezes repete o nome de Nimeyer sempre para se referir ao presidente da Tanzânia. Já não corrigi. Compreendi que estava em face de uma perturbação. Liguei esta à perturbação revelada em Conselho de Ministros de 12 de Junho.»
Sinais evidentes da etapa final que se aproximava, com ou sem cadeira. Era um símbolo cruel daqueles tempos de paralisia institucional: o Estado Novo, pelo avanço inexorável da idade do fundador, tornara-se irremediavelmente velho.


Salazar, os dias do fim

1 de Agosto de 1968
Numa quinta-feira, pela manhã, Salazar cai de uma cadeira de praia instalada no terraço do forte do Estoril, onde passa férias, batendo com a cabeça nas lajes do chão. É examinado apenas cinco dias depois pelo médico assistente: o cardiologista Eduardo Coelho – que acompanhava Salazar desde 1945 – faz-lhe um exame superficial, sem detectar nada de grave, mas avisa-o que o chame se sentir dores na cabeça.

10 de Agosto
Ultima a remodelação ministerial, em curso há várias semanas.

15 de Agosto
Recebe no forte a escritora e jornalista francesa Christine Garnier, com quem década e meia antes iniciara uma estreita relação de amizade.

19 de Agosto
Tomam posse os novos ministros, no Palácio de Belém.

27 de Agosto
Ao fim da tarde, Salazar sente dores de cabeça mas proíbe a governanta de chamar o médico, limitando-se a tomar uma aspirina.

1 de Setembro
Audiência ritual com o Presidente da República, durante hora e meia. «São claramente frias as relações entre os dois homens», assinala Franco Nogueira no último dos seis volumes da sua biografia de Salazar.

2 de Setembro
Sente dificuldade em manter-se de pé, mas procura esconder a sua precária condição física.

3 de Setembro
Último Conselho de Ministros presidido por António de Oliveira Salazar. O chefe do Governo não intervém. «Está nitidamente cansado, apresenta uma palidez quase doentia», observa Franco Nogueira, então ministro dos Negócios Estrangeiros.

4 de Setembro
Sente novas dores de cabeça, mais intensas. É de novo examinado pelo médico.

6 de Setembro
Eduardo Coelho pede opinião a António de Vasconcelos Marques, um dos mais prestigiados neurocirurgiões portugueses. Este examina Salazar no forte, fazendo-lhe testes aos músculos, aos nervos, ao cérebro: o doente não se recorda do nome da Universidade em que se formou nem do ano em que concluiu a licenciatura. O médico adianta a hipótese de se tratar de um hematoma craniano ou mesmo de uma trombose cerebral. Transportado de automóvel para Lisboa, seguem-se exames minuciosos nos hospitais dos Capuchos e de São José. Perto da meia noite, Salazar é conduzido ao Hospital da Cruz Vermelha, em Benfica, onde fica internado no quarto 68. À chegada, já mal consegue mover os membros direitos.

7 de Setembro
Entre as 5 e as 7 da manhã, é operado pela equipa conduzida por Vasconcelos Marques. Confirma-se: tinha um hematoma intracraniano subdural crónico, alojado no hemisfério cerebral esquerdo. Às 9 da manhã, os portugueses são informados pela Emissora Nacional com uma notícia sucinta.

14 de Setembro
Boletim médico: «O Sr. Presidente do Conselho entrou em franca convalescença e regressará brevemente à sua residência em Lisboa.»

16 de Setembro
De manhã, Salazar conversa com Eduardo Coelho, que lhe descreve com minúcia a operação a que foi submetido e os riscos que correu. Ao princípio da tarde, logo após o almoço no quarto 68, sofre uma hemorragia interna no hemisfério cerebral direito que o inutiliza para a vida autónoma. É exonerado a 27 de Setembro de 1968 por Thomaz, que designa Marcello Caetano como novo presidente do Conselho. Morre a 27 de Julho de 1970, sem nunca ter recuperado por completo a lucidez.

Da edição nº 4 do Dia 15

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