Entrevista a Auður Ava Ólafsdóttir: «O silêncio pode salvar o mundo»

Jonas Ebeneser está quase com 50 anos. É um homem divorciado, heterossexual, sem vida social ou sexual. E tem a compulsão de consertar tudo o que lhe aparece à frente. Tomou recentemente conhecimento de que não é o pai biológico da sua filha. Isso despedaça-o e fá-lo mergulhar numa crise profunda.

Foto: Rafael G. Antunes

 

Com grande humanidade, Auður Ava Ólafsdóttir, a mais premiada escritora islandesa, mostra no seu último romance, “Hotel Silêncio”, a capacidade de auto-regeneração de um homem que redescobre um sentido para a vida através da bondade, mesmo que aprisionado num profundo desespero.

 

«A Islândia é como um grande mosteiro. Quando estou no estrangeiro, é do silêncio que mais sinto falta»

 

Entrevistámos a autora, estudiosa do islandês antigo, apenas falado por 320 mil pessoas. Em criança, ao perceber que falava uma língua que tão poucas pessoas dominam, interpretou-o como um sinal que iria definir o seu futuro.

 

O que a inspirou a escrever este livro?

 

Queria explorar o sofrimento humano e também confrontar o facto de estarmos tão preocupados com o nosso bem-estar. Neste romance, o corpo representa o eixo central, bem como a capacidade dos homens de se regenerarem. É também uma travessia da escuridão para a luz, como uma ressurreição. Quero transmitir uma mensagem de esperança. Questiono a capacidade da humanidade para salvar o mundo. Estamos todos perdidos. Acredito que a solução passe por tentar fazer o bem. Afinal, é tudo tão efémero, somos tão frágeis.

 

O silêncio, imprescindível no processo de cura neste livro, é essencial para si?

 

Muito. Até porque a minha inspiração vem do silêncio. A Islândia é como um grande mosteiro. Quando estou no estrangeiro, é do silêncio que mais sinto falta. Acredito que o silêncio seja capaz de salvar o mundo. Podemos dominar muitas línguas, mas isso pode não necessariamente aproximar-nos uns dos outros; pode até criar obstáculos. Os meus personagens falam muitos idiomas mas não se conseguem exprimir facilmente por palavras. Também penso que há muito significado além das palavras; podemos expressar-nos de tantas outras formas. Lá por termos capacidade de falar não significa que tenhamos coisas importantes a dizer.

 

O sentimento de solidão é muito característico da literatura islandesa…

 

Não apenas na literatura islandesa. A solidão é um tema comum. Tal como o amor. Ouvi dizer que a literatura resume-se a sete temas. Não há como fugir a isso, a não ser procurar incessantemente por histórias novas. Há muito amor nas minhas narrativas, mas quando tudo corre bem, o tema esgota-se. Contar a história de alguém que está a passar por uma crise existencial é muito mais interessante. Qualquer autor, acredito, gostaria que o mundo fosse diferente. E enquanto escritores, temos a liberdade para criar microcosmos com as suas próprias leis e regras. É como organizar o caos e dar-lhe um significado. É isso que a literatura nos proporciona.

 

Acha que o “Hotel Silêncio” vai ajudar as pessoas?

 

Tenho esperança que sim, por estar construído como se fosse uma ressurreição. Gostava que os leitores ficassem com a percepção que, embora não possam mudar o mundo, podem contribuir com pequenos gestos, sobretudo através da bondade. Se nada fizermos, a culpa recairá toda sobre nós. Vejo a classe política a falhar redondamente, principalmente quando se trata do ambiente, do armamento; não serão eles que irão fazer a diferença. Mas talvez o povo unido…

 

O cenário é um país devastado pela guerra, mas nunca especificado. Porquê?

 

Não tem nome, é abstracto. Queria que pudesse ser em qualquer lugar. Há muitas referências que até remetem para nós, o nosso interior. Tive muito cuidado para não incluir características que pudessem situar a história geograficamente, porque queria que funcionasse como uma metáfora. Mas é natural que os leitores consigam situar o contexto em determinada parte do mundo.

 

Auður significa vazio. E o nome do protagonista, Jonas, pomba. Sei que é uma homenagem. Pode contextualizar?

 

Além de um tributo a um amigo meu, poeta, que morreu recentemente com 49 anos, é também uma mensagem de paz que quero transmitir ao mundo, através da figura deste homem, um arquétipo da masculinidade islandesa. Ele é capaz de consertar tudo excepto a si mesmo. Vive num profundo desalento, mas aprende a existir com as suas cicatrizes, relativizando a sua dor ao compará-la com a dos outros. É uma alma perdida, mas descobre que alguém precisa dele, e isso fá-lo renascer.

 

O que anda a ler?

 

Poesia, sempre. Tive um professor que começava todos os seus dias com a leitura de um poema, e isso ajudava-o. Inspirou-me. Agora, leio poetas novos islandeses. E quando termino um livro, faço sempre um interregno da prosa; dedico-me inteiramente à poesia. Infelizmente, não domino o português; tenho muita curiosidade em conhecer a literatura portuguesa.

 

Hotel Silêncio

Auður Ava Ólafsdóttir

Quetzal, 2019

200 páginas

 

 

Mais Notícias
Comentários
Loading...

Multipublicações

Marketeer
Bacardi foca-se nas marcas próprias em Portugal
Automonitor
O novo Lamborghini Sián é simplesmente eletrizante