Gente vulgar

“Roma”, longa-metragem do mexicano Alfonso Cuarón, conquistou o Leão de Ouro em Veneza e dois Globos de Ouro.

É o mais sério candidato a receber o Óscar de melhor filme não falado em inglês na próxima distribuição das estatuetas.

A vida quotidiana, a vida dos simples, os peque­nos dramas das vidas daqueles que são iguais a mim ou iguais a ti. Vai faltando disto no cinema, hoje inundado de efeitos especiais, de truques computorizados, de super-he­róis.

É por isto que “Roma”, a mais recente longa-metragem de Alfonso Cuarón, é um bálsa­mo para os nossos olhos já can­sados de tanto artificialismo e tantas luzes faiscantes que ilu­dem a realidade.

Rodado a pre­to e branco, no bairro da Cidade do México que tem este nome, “Roma” instala-nos no interior da casa de uma família que nos é apresentada pela empregada que também ali mora. E é sobretudo por intermédio dela que vamos sabendo o que lá se passa – do­res e alegrias e anseios e frus­trações. E é também a ela, qua­se como um membro da família também, que nos vamos afei­çoando.

Sentimo-nos de algum modo identificados com aquela rotina intimista por vezes tres­passada de pequenos e médios sobressaltos, sentimo-nos parte daquele todo. Mesmo que nun­ca tenhamos viajado ao México, mesmo que não façamos uma ideia concreta do que foi aquele início da década de 70, antes da era globalizadora.

Esta é a verdadeira magia da Sétima Arte: fazer-nos trans­portar em simultâneo no tempo e no espaço. Cuarón, que já havia dirigido em 2004 o terceiro ca­pítulo cinematográfico da saga de Harry Potter e em 2013 as­sinou o magnífico “Gravidade” que lhe valeu o Óscar de melhor realizador, assina agora um ver­dadeiro trabalho de autor.

Em “Roma” – filme disponível na plataforma Netflix após ter es­treado em Dezembro nas salas de cinema portuguesas – ele não foi apenas realizador e produtor: também escreveu, fotografou e montou o filme. Com um labor de artesão cada vez menos em voga no século XXI.

Daí, talvez, este filme só com poucos meses de existência – mas já galardoa­do com o Leão de Ouro no Fes­tival de Veneza e com Globos de Ouro para melhor realização e melhor filme estrangeiro, além de principal candidato a rece­ber o Óscar para melhor película não falada em inglês na próxima distribuição de estatuetas em Hollywood – nos pareça tão fora de tempo na sua bela fotografia a preto e branco que o envolve num suave anacronismo.

Como se aquela época fos­se também a nossa. Como se de Roma nada mais soubéssemos senão que tem as mesmas qua­tro letras da palavra amor.

 

“Roma”. De Alfonso Cuarón. Com Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Die­go Autrey . Produção mexicana-ame­ricana (2018). Duração: 135 minutos.

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