«Há mais jornalismo de péssima qualidade»

«Democracia sem informação livre é o prólogo de uma farsa ou de uma tragédia, ou, talvez, de ambos», afirma Luís Cabral, professor universitário em Nova Iorque, em entrevista ao DIA15. Citando James Madison, o maior obreiro da Constituição norte-americana.

A comunicação social vive uma crise irre­versível por falta de definição de modelo económico e aparente desinte­resse dos leitores?

A crise resulta, em grande parte, da “revolução digital”. Os lei­tores (e os ouvintes) têm agora muitas alternativas ao jornalis­mo “tradicional”. Concretamen­te, uma possível classificação da actividade de jornalismo inclui três funções relacionadas mas diferentes: Primeiro, a apresen­municação social. O comentário, por sua vez, abunda: veja-se, por exemplo, a explosão de blogues de análise política. A única fun­ção que, na minha opinião, fica de fora neste processo é o jorna­lismo de investigação.

 

A crise de vendas e de audiências nos “media” que se regista em Portugal ocorre em contraciclo com outros países ou regiões do globo?

Não. Tal como a revolução digi­tal é um fenómeno generalizado, a crise do jornalismo é também ela generalizada. Nos Estados Unidos, por exemplo, os jornais fecham à taxa de muitas dezenas cada ano.

 

Um jornalismo em crise implica necessariamente uma democra­cia doente?

Como dizia James Madison, de­mocracia sem informação livre é o prólogo de uma farsa ou de uma tragédia, ou, talvez, de ambos. A parte do jornalismo que está mais em crise — o jornalismo de in­vestigação — é justamente a que mais importa para a democracia, especialmente num país como Portugal onde a divisão de pode­res é muito limitada.

 

Deve o Governo auxiliar o sector, nomeadamente com apoio financeiro ou publicitário, como sugeriu recentemente o Presi­dente da República?

Pelo que acabo de dizer, a intro­missão do Estado na comuni­cação social independente é um processo que levanta muitos pe­rigos. Acho a sugestão do Presi­dente no mínimo problemática, no máximo desastrosa.

 

Faz sentido haver, neste final da se­gunda década do século XXI, órgãos públicos de comunicação social?

Mais uma vez, como conse­quência natural do que respon­di antes, a resposta é um rotun­do “não”.

 

Existe excessiva promiscuidade en­tre o poder político e os jornalistas?

O nível óptimo de promiscuidade entre o poder político e os jor­nalistas é exactamente zero vír­gula zero. Qualquer valor posi­tivo é excessivo. Quando o nível de promiscuidade é tão elevado como é em Portugal — parece que não há político que não faça uma perninha na rádio, nos jor­nais ou na televisão — diria que estamos muito, muito para além do que é razoável.

 

Fala-se hoje muito do “jornalis­mo de cidadania”, mediante o recurso às redes sociais. É possí­vel e desejável transformar cada cidadão munido de tecnologia digital em jornalista?

Como dizia anteriormente, no que respeita às duas primeiras funções jornalísticas (notícias e comentário), a “democratiza­ção” do jornalismo é possível e é, aliás, uma realidade. É desejável? Depende: tal como noutros secto­res relacionados (música, vídeo, edição de livros, etc), o aumento astronómico da oferta nem sem­pre foi acompanhado por uma melhoria da qualidade média, an­tes pelo contrário. Por outras pa­lavras, há aqui uma tensão entre quantidade e qualidade.

 

A desinformação – as chamadas “fake news” – ameaça matar o jornalismo?

A desinformação é talvez o caso mais patente do que di­zia anteriormente. O aumento astronómico da oferta impli­ca um “pequeno” problema: o aumento também astronómico de um jornalismo de péssima qualidade e, em última análi­se, a desinformação. Não creio que este fenómeno represente uma ameaça mortal para o jor­nalismo. Pelo contrário, estou convencido de que será o factor catalizador da mudança do mo­delo de negócio do sector. Como dizia o Herbert Simon, riqueza de informação leva a pobreza de atenção. Se o Simon fosse vivo, provavelmente concorda­ria comigo que a principal fonte de valor acrescentado no sector passará a ser a organização e recomendação de conteúdos.

 

OBSERVADOR ATENTO

Professor universitário nos EUA, onde fecham dezenas de jornais por ano, Luís Cabral é um observador atento da realidade mediática norte-americana e portuguesa. Doutorado em 1989 pela Universida­de de Sanford, este ex-docente na Universidade Nova que agora lec­ciona Economia na Universidade de Nova Iorque foi consultor de orga­nizações públicas e privadas, tendo-se especializado em concorrência empresarial, nomeadamente na área da comunicação social. Nas horas vagas, é pintor e saxofonista – seus “hobbies” de eleição.

 

Da edição n.º 11 do DIA15

 

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