In vino veritas

Portugal é o 4.º país da Europa com a maior área de vinha plantada, com 194 mil hectares em 2017. A qualidade do vinho que daí advém é reconhecida internacionalmente e o papel das mulheres é de cada vez maior destaque.

A Europa tem 4 milhões de hectares de vinha plantada, representando mais de metade do resto do mundo (3,6 milhões de hectares), de acordo com dados previsionais da organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). Na lista encabeçada por Espanha, França e Itália, Portugal está à frente de países como a Austrália e a África do Sul, com 145 e 125 mil hectares, respectivamente. Quanto à produção global de vinho, em 2017, e excluindo sumo e mosto, recuou para 250 milhões de hectolitros, uma quebra de 23,6 milhões face à produção de 2016, o que, de acordo com a OIV, «pode ser descrito como historicamente baixo». Na União Europeia, a produção vinificada em 2017 está estimada em 141 milhões de hectolitros, uma queda de 14,6% quando comparada com o ano anterior, uma situação que resulta das condições climatéricas adversas nos principais países produtores de vinho da Europa. Face a 2016, a produção em Itália (42,5 milhões de hectolitros), França, (36,7 milhões de hectolitros), Espanha (32,1 milhões de hectolitros) e Alemanha (7,7 milhões de hectolitros) recuou em 17%, 19%, 20% e 15%, respectivamente. A produção moderada em 2017 em Portugal, Roménia e Áustria foi ainda assim superior face aos níveis modestos de 2016, declara a OIV. Já fora da União Europeia, a produção das várias regiões foi contrastante, devido a diferentes factores. Os Estados Unidos, por exemplo, alcançaram, em 2017, os 23,3 milhões de hectolitros, uma produção que permaneceu muito alta, tal como em 2016, mas, no Chile, a produção voltou a cair depois dos baixos níveis de 2016, para apenas 9,5 milhões de hectolitros. O impacto significativo do El Niño na produção de 2016 da América do Sul ainda teve repercussões neste mercado, bem como na Argentina, com 11,8 milhões de hectolitros, que embora tenha crescido face aos baixos níveis de 2016, não conseguiu chegar aos níveis de produção geralmente alcançados no princípio da década. Já África do Sul, a produção chegou aos 10,8 milhões de hectolitros, enquanto na Austrália, com 13,7 milhões, a produção de vinho continuou a crescer em volume regressando aos níveis de 2005.

EUA são quem mais consome
O maior consumidor global de vinho está do outro lado do Atlântico. Os Estados Unidos, com um consumo estimado em 32,6 milhões de hectolitros, reafirma a sua posição desde 2011 e assistiu, inclusive, ao aumento da procura interna face ao ano anterior, com um crescimento de 2,9%. A Europa, por sua vez, conseguiu contrariar o declínio no consumo dos países produtores e consumidores tradicionais. França reportou um declínio muito moderado, para 27 milhões de hectolitros, enquanto Itália, para 22,6 milhões, Espanha, para 10,3 milhões e Alemanha, para 20,2 milhões, registaram aumentos.

A China também aumentou o consumo, mais 3,5% em 2017 para 18 milhões de hectolitros, enquanto a Oceania assistiu a uma estabilização, já que «o ligeiro declínio na Nova Zelândia foi compensado pelo crescimento continuado da Austrália», refere a OIV. Na África do Sul, «o consumo voltou a aumentar, para 4,5 milhões de hectolitros, enquanto na América do Sul baixou, principalmente na Argentina, com uma descida de 5% para 8,9 milhões de hectolitros, e no Chile, menos 10% para 2,2 milhões de hectolitros. O Brasil voltou a registar crescimento para perto de 3,3 milhões de hectolitros», indica o documento da OIV.

Vinho engarrafado lidera
O mercado global de exportações, em 2017, deverá ter chegado aos 107,9 milhões de hectolitros em volume, mais 3,4% do que em 2016, e 30,4 mil milhões de euros em valor, mais 4,8%.

Aqui ao lado, Espanha manteve-se como maior exportador em volume com 22,1 milhões de hectolitros e uma quota de mercado global de 20,5%, mas França alcançou o primeiro lugar do pódio em termos de valor, com 9 mil milhões de euros. Nova Zelândia, Chile, Portugal, França, Itália e África do Sul venderam ao exterior mais 3% face a 2016, enquanto Argentina, Estados Unidos e Espanha recuaram. Em termos de tipo de produto e em volume, as vendas de vinho engarrafado sem gás terão crescido de 54% para 57% entre 2016 e 2017, uma subida que, de acordo com a OIV, «contraria a tendência verificada durante vários anos, já que entre 2000 e 2016, as exportações de vinho engarrafado caíram de 65% para 54%». A percentagem de vinho engarrafado em volume (menos de 2 litros) foi bastante elevada na Alemanha, Portugal, Argentina e França. Em termos de valor, o vinho engarrafado representou 72% do valor total de vinho exportado em 2017.

O maior crescimento, tanto em volume como em valor – com mais 11,2% e 8,9% face a 2016, respectivamente –, foi novamente alcançado pelos vinhos com gás, com 8,6 milhões de hectolitros em 2017. Em valor, o vinho com gás representou 19% do total do mercado global, embora apenas alcance 8% do total de volume exportado.

Quando à percentagem das exportações em volume de vinho a granel, esta caiu significativamente face a 2016, embora continue a ser significativa em Espanha, África do Sul, Chile, Austrália e Estados Unidos. Em volume, recuaram substancialmente na Alemanha, Argentina e Portugal, mas aumentaram na Nova Zelândia. Em 2017, «o vinho a granel representou 8% do valor global das exportações de vinho, enquanto em volume ascendeu a 35%», adianta a OIV.

Principais exportadores e importadores
O comércio de vinho foi largamente dominado pela Espanha, Itália e França. Estes três países europeus representaram 54,6% ou 58,9 milhões de hectolitros em volume do mercado global e 58,2% ou 17,7 mil milhões de euros em termos de valor.

No que se refere ao volume, Itália e França reportaram crescimento nas exportações, em detrimento da Espanha. Também o Chile, a Nova Zelândia e a Austrália registaram aumentos significativos, tal como no ano anterior, alcançando quotas de mercado globais de 9%, 2% e 7%, respectivamente. A Argentina e os Estados Unidos obtiveram as quebras mais significativas em termos relativos, com descidas de 14% e 13,5%, respectivamente, seguidos por Espanha, com menos 9,7%.

Em termos de valor, Itália e França continuaram a dominar o mercado com quotas de 29,6% e 19,3%, respectivamente. Portugal, por seu turno, registou um crescimento de 2,8 milhões de hectolitros para 3 milhões em volume e de 723 milhões de euros para 752 milhões em 2017.

Nas importações, os cinco maiores – Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, França e China, «que geralmente representam mais de metade de todas as importações», compraram um total de 55,3 milhões de hectolitros com um valor de 14,4 mil milhões de euros em 2017.

A OIV declara que o maior importador em volume no ano passado ainda foi a Alemanha, embora tenha reportado um ligeiro declínio de 0,1%, seguida do Reino Unido, com 13,2 milhões de hectolitros e 3,5 mil milhões de euros, menos 1,3% do que em 2016. A OIV destaca que ainda não é possível prever as consequências a longo prazo do Brexit na indústria do vinho.

Em conclusão, o mercado global continua dinâmico e Portugal mantém-se como um dos principais players mundiais. Para tal, muito tem contribuído o aparecimento de novos vinhos de qualidade reconhecida, alguns dos quais desenvolvidos e comercializados pelas mulheres presentes nas próximas páginas. Num mercado que era fortemente dominado por homens, salvo raras excepções como a casa Ermelinda Freitas ou a “Ferreirinha”, hoje há um “novo normal”.

 

Do especial Vinhos da edição nº 5 do Dia 15

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