Inteligência Artificial poderá salvar a Amazon

Para fazer frente aos gigantes do retalho online, mais operadores estão a voltar-se para a inteligência artificial (IA). Mas, primeiro, precisam de mudar a forma como as pessoas compram através das plataformas.

«Imagino que daqui a cinco anos já poucos se lembrem como era fazer compras no comércio tradicional, como tínhamos de entrar em várias lojas para encontrar a peça de roupa que pretendíamos», afirmou Eric Colson, director de algoritmos da Stitch Fix. A startup, sediada em São Francisco, faz parte de um número crescente de empresas que tentam combinar inteligência artificial com um toque humano para conquistar grandes retalhistas online.

A Stitch Fix conta com 2,7 milhões de clientes activos nos EUA e planeia lançar-se no Reino Unido em 2019. Em vez de esperar que o consumidor se desloque às lojas, a empresa combina os resultados de uma série de algoritmos com as percepções de um estilista humano para entregar um caixa toda bonitinha com roupas novas directamente na sua porta. A entrega e devoluções ficam por conta da empresa.

Quando a Stitch Fix chegar ao Reino Unido, enfrentará forte concorrência de rivais mais estabelecidos. A Thread, fundada em 2012, já acumulou um milhão de clientes no Reino Unido para o seu serviço personalizado de compras de roupa masculina.

A empresa arrecadou 17 milhões de libras (19 milhões de euros) em novos financiamentos em Outubro (mais de metade dos quais vieram do braço de investimentos da H & M), e recentemente lançou a sua primeira campanha publicitária no metro de Londres.

O objectivo actual da Thread, de acordo com o co-fundador e CEO Kieran O’Neill, é tornar-se num nome familiar.

As empresas trabalham de forma diferente: a Stitch Fix usa a abordagem de “caixa surpresa” — o cliente não sabe o que está a receber até abrir o pacote, enquanto a Thread permite que se seleccionem os itens que serão entregues. Mas ambas as empresas contam com algoritmos para “adivinhar” a roupa perfeita para os seus consumidores, e também para entender melhor os seus clientes e gerir os seus inventários.

Num movimento que ecoa a decisão da Netflix de começar a criar os seus próprios filmes e séries, a Stitch Fix, recorrendo à IA, lançou a sua própria linha de roupa, blazers, calças e cintos para preencher as lacunas identificadas pelos algoritmos da empresa.

Mas a moda é inconstante e fundamentalmente muito humana, e ambas as empresas reconhecem que o modelo de moda suportado pela IA só funciona na medida em que é capaz de incorporar um toque pessoal.

Julia Bösch, CEO da Outfittery, uma startup com sede em Berlim que oferece moda com base nos algoritmos para 600.000 homens em toda a Europa, diz que um dos principais desafios da sua empresa é levar os seus serviços à escala sem perder conexão humana. «Precisamos realmente de entender os nossos clientes», afirmou Bösch.

A operar em oito países europeus, a Outifittery “aprendeu”, por exemplo, que os homens na Suécia tendem a gostar mais do cinzento e do azul-escuro, enquanto os holandeses gostam de cores mais vivas. Para compensar essas diferenças, os estilistas da empresa são especializados por país. Até hoje, a Outfittery conseguiu atingir perto de 80% de reconhecimento de marca na Alemanha, principalmente através da comunicação boca em boca.

O que a empresa quer fazer, segundo Bösch, é recriar a sensação de entrar numa loja dita mais tradicional: o proprietário recebe-o pelo nome, senta-se consigo para um café e fala sobre alguns dos itens mais recentes em estoque que possam adequar-se ao seu gosto.

É um objectivo que muitos na indústria da moda almejam, sustenta, reconhecendo, como Colson, que o comércio de rua está sob ameaça por causa dos consumidores que estão a exigir uma experiência de compra muito mais personalizada.

A inteligência artificial pode ajudar nessa transição, mas será esta suficientemente sofisticada para competir com o toque humano? «Não, as lojas não vão morrer», diz Matthew Brown, director da Echochamber, uma empresa de consultoria que acompanha as tendências globais de retalho. «Mas vão mudar.»

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