Interdisciplinaridade: Repensar os modelos de ensino

O modelo de ensino vigente, concentrado em testes, na padronização de matérias e no método expositivo, há muito que é questionado. Várias vozes defendem um sistema em que, ao invés de fomentar um conhecimento abstracto, os alunos sejam preparados para trabalhar interdisciplinarmente, por forma a alcançar um ambiente de equidade e inclusão.

Escola Manuel da Maia
Na Escola Manuel da Maia, em Campo de Ourique (Lisboa), funciona o atelier MArt, fundado por Paulo Brighenti; um projecto pioneiro a nível nacional. Apesar de coincidir com as férias escolares, encontramos vários alunos a trabalhar com afinco o barro, e a experimentar pela primeira vez a técnica da gravura. A alegria era contagiante. E o empenho de todos em aprender, notável.

Este estabelecimento é frequentado por 300 alunos de várias nacionalidades e religiões, com idades entre os nove e os 18 anos, e a sua zona de inserção apresenta características muito diversificadas em termos económicos e sócio-culturais. Colocada no 767 lugar do ranking de escolas públicas, com uma taxa de retenção no 9º ano de 38,46% e 64,4% de alunos carenciados, serve a população estudantil das famílias do antigo Casal Ventoso.

O agrupamento tem como patrono Manuel da Maia (1677-1768), figura que se destacou pelo seu papel na reedificação da cidade de Lisboa, após o Terramoto de 1755. A ele se deve ainda a construção do Aqueduto das Águas Livres, bem como a recuperação do espólio da Torre do Tombo. De realçar ainda a faceta solidária de Manuel da Maia, para quem os mais carenciados eram uma preocupação constante, contribuindo para a sua causa com grande parte do seu património. E tudo indica que o seu legado está a ser perpetuado.

O artista plástico Paulo Brighenti soube do Pavilhão das Oficinas desta escola, que estava desaproveitado, e havia interesses comuns para que a escola de arte ali funcionasse. Face a isto, apresentou à direcção uma proposta no âmbito do estatuto TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária).

Tanto o conselho pedagógico, como a direcção, com o aval do Ministério da Educação, apoiaram o projecto. A MArt recuperou as oficinas e paga as contas inerentes à utilização do espaço. A par do currículo, os alunos usufruem do atelier, tanto no âmbito da disciplina de Educação Visual, como nos tempos livres. Ali, por não haver avaliação, «sentem o espaço como um escape, e tratam a MArt de forma diferenciada e disciplinada», destaca Paulo Brighenti. Aprendem a respeitar o próximo, limpam o que sujam, querem cumprir os objectivos e terminar os trabalhos.

O atelier promove também visitas guiadas, nomeadamente a museus. O propósito é, sobretudo, explorar a identidade individual dos alunos através da arte. Uma vez que este espaço funciona também como residência  artística, os que ali trabalham ensinam aos alunos várias técnicas: gravura, pintura, escultura, desenho, cerâmica e fotografia. A estrutura da MArt foi adaptada às necessidades da comunidade escolar.

«Há um enorme fosso social e os professores têm dificuldades em lidar com os alunos», enfatiza Paulo. Por isso, os artistas que ali trabalham podem ser o exemplo de uma outra realidade para estas crianças, que vivem em «situações dramáticas». Por serem “investigadores” de várias áreas, os artistas são capazes de fomentar a curiosidade nos alunos em várias vertentes.

Não se pretende que dali saiam os futuros artistas do país, mas sim possibilitar a estas crianças o contacto com outros exemplos de vida, com outras pessoas.

Escola da Ponte
Ainda no que concerne a estes modelos de ensino alternativos, um dos estabelecimentos de referência é a Escola da Ponte, em Santo Tirso: uma instituição de carácter público organizada segundo uma lógica de projecto e de equipa, estruturando-se a partir das interacções entre os seus membros. A monodocência pode ser um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento de projectos educativos. Os professores são remetidos para o isolamento de espaços e tempos justapostos, entregues a si próprios e à crença numa especialização generalista. E, se há alunos com dificuldades de aprendizagem, também os professores têm dificuldades de ensino.

Nesta escola, «os alunos são alunos de todos os professores, e todos os professores são professores de todos os alunos». A palavra-chave aqui é a liberdade.

Ao abrigo de um contrato de autonomia celebrado em 2003, a instituição adoptou dinâmicas diferentes das convencionais. A organização faz-se por núcleos de projecto; a mobilidade dos alunos entre os diferentes núcleos é regulada por um “perfil de transição”, definido nos termos do projecto educativo.

A filosofia é a de promover a autonomia e a consciência cívica dos alunos, que são desafiados a participar nas tarefas e na responsabilidade de gestão da escola. O projecto em que assenta prevê ainda outras particularidades: o trabalho do aluno é supervisionado por um orientador educativo, ao qual é atribuído a função de tutor. O tutor assume um papel de mediador entre o encarregado de educação e a escola.

Colégio Verde Água
A metodologia do Movimento Escola Moderna é o centro de todo o trabalho realizado pelo Colégio Verde Água, no concelho de Mafra. O primeiro colégio, com creche e jardim de infância, e a falta de continuidade deste modelo no ensino público, levou um conjunto de nove pais a reunirem-se com a direcção do colégio e a avançarem para construção de outro, de 1º e 2º ciclos, no qual foram investidos mais de 2 milhões de euros.

Teresa Raposo, directora administrativa e sócia do projecto, é mãe de uma das crianças que frequenta esta escola. «Encontrei um projecto onde a minha filha era ela própria. Ou seja, na creche e no jardim de infância, se ela tinha gostos diferenciados, havia sempre resposta da escola, para os gostos, para as descobertas que queria fazer e podia explorá-los livremente».

Este é, aliás, o centro de toda a metodologia, o respeito pela criança enquanto ser individual, que não tem de estar submetido a um padrão.

«As crianças ou a sala não têm de estar todas a fazer a mesma coisa. Podem, com dois ou três amigos, ou até a título individual, desenvolver um determinado tipo de trabalho, porque é o seu interesse naquele momento. Esta noção da criança individualizada, e o facto de se poder explorar aquilo de que gosta, foi determinante», conta Helena Rodeiro, consultora pedagógica do colégio. «Naturalmente isto tem muito a ver com o corpo docente, com os colaboradores que estão também no outro colégio Verde Água», refere.

Tanto a arquitectura dos dois colégios como as pessoas contratadas para os integrar foram definidos em função deste modelo pedagógico. «O próprio Movimento Escola Moderna tem instruções de como o 1º Ciclo, 2º Ciclo e 3º Ciclo desenvolvem esta forma de estar. É essencial a criança estar dentro de um regime de educação que é cooperativo, em que os pares têm uma importância muito grande. O professor, aqui, é um facilitador. Não os formatamos para nenhuma profissão em concreto. Mas as bases – saber pesquisar, trabalhar em grupo, apresentar um trabalho, expor ideias, argumentar de forma lógica – são competências que trabalhamos com eles», diz Teresa Raposo.

O colégio tem um currículo igual ao das escolas públicas como base, mas inclui disciplinas diferenciadas. «As crianças têm inglês desde os dois anos no jardim- de-infância, disciplina que é mantida no 1º e 2º ciclos diariamente. «No próximo ano lectivo, temos filosofia e teatro como bases também deste currículo. Este ano estavam como extracurriculares, mas percebemos que são a base daquilo que queremos que as crianças desenvolvam nas outras disciplinas. O saber pensar, estar e apresentar treinam-se com o teatro e a filosofia, assim como o autoconhecimento que é muito importante no nosso modelo.

 

Helena Rua e Sandra Gonçalves

Da edição nº 3 do Dia 15

Mais Notícias
Comentários