Mais que um jogo*

O título não é uma hipótese mas a firme convicção de que o futebol é mais que um jogo. Poupo o leitor a uma lista de momentos e partidas em que se consegue demonstrar que se jogava mais do que a simples vitória dentro das quatro linhas.

É preciso que se entenda que este jogo é um fenómeno de massas que atinge uma grande parte do mundo e que vai muito além de clubes, jogadores, técnicos ou dirigentes. O futebol perde cada vez que abdica da poesia, do drama e da imprevisibilidade e ganha cada vez que assume dimensões políticas, colectivas e sociais.

Talvez este primeiro parágrafo pareça algo abstrato e não inspire a leitura de quem não partilha a paixão pelo jogo mas foi a melhor forma que encontrei de começar um artigo em que pretendo rebater a ideia, tantas vezes repetida também entre fiéis adeptos, de que o futebol é um negócio.

Podemos concordar que sempre houve negócios associados ao futebol e que a aceleração da sua mercantilização tem efeitos concretos no jogo. A redução do número de lugares no estádio e consequente recomposição social das bancadas, as épocas de “abertura de mercado” e consequente precarização das equipas com menos recursos financeiros, hipervalorização da figura dos agentes e intermediários ou redução de trabalhadores a um número (valor da cláusula ou transferência), são exemplos de acções de mercantilização que nos habituámos a tomar como normais. Não o são, nem favorecem o futebol. O absurdo exemplo da possibilidade de uma jornada do campeonato espanhol poder vir a ser disputado nos EUA também é um bom exemplo da forma como o futebol vai sendo secundarizado em função do negócio.

A defesa do futebol deve intensificar a crítica a esta mercantilização global que parasita e corrompe a essência do jogo e que nada de bom lhe acrescenta. O Estádio delle Alpi não estará cheio porque a Juventus investiu milhões num jogador, mas porque os adeptos aspiram ver Cristiano Ronaldo jogar, fazer jogar e vencer. Não deve ser repetido que o futebol é um negócio porque o negócio prejudica a essência do jogo. Muitos pensarão que os clubes que tradicionalmente vendem jogadores são beneficiados pelo valor das operações mas esta é uma análise que não considera a real distribuição de milhões entre agentes e intermediários ou pondera a simples força competitiva que esses clubes ganhariam mantendo-os nos plantéis. Hoje é difícil pensar que a Liga dos Campeões possa ser ganha por um clube que não esteja entre no Top 10 dos mais ricos seja pela forma como o sorteio é montado para que se evite o confronto entre eles, seja pela canabalização dos melhores jogadores que os outros clubes vão sofrendo.

A defesa do futebol deve intensificar o combate contra as redes corruptas que passeiam pelas suas organizações, às SAD’s que roubam os sócios e adeptos, à construção do ódio entre pares e novas/velhas formas de machismo, colonialismo e nacionalismo que procuram ganhar espaço nas bancadas e fortalecer-se junto deste fenómeno de massas.

 

*“Més que un club” [Mais que um clube] é o lema do FC Barcelona. Referida pela primeira vez na tomada de posse do presidente Narcís de Carreras em 1968, terá sido Manuel Vázquez Montalbán – escritor, jornalista e poeta catalão – que lhe construiu o significado de transcendência política e social muito além do jogo e do clube.

 

Da edição nº 5 do Dia 15

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