Memória de Elefante | Um regime fundado na rua

No Verão quente de 1975, Mário Soares travou o passo aos comunistas, invertendo o rumo do processo revolucionário. Com ponto culminante no mega-comício da Fonte Luminosa, em Lisboa, a que acorreram mais de 100 mil pessoas. Muitas nem votavam no PS.

Foi – garantem muitos dos que o testemunharam – o maior comício alguma vez feito em Portugal. Ocorreu a 19 de Julho de 1975, a meio de um Verão escaldante, em pleno processo revolucionário, com os militares a tutelar as instituições políticas e o País em sério risco de guerra civil.

O IV Governo Provisório, empossado quatro meses antes, assentava numa débil coligação que integrava três partidos – PS, PPD e PCP – mas o poder real assentava nos militares, que haviam feito uma vertiginosa guinada à esquerda na sequência do abortado golpe spinolista de 11 de Março. Portugal vivia uma atmosfera insurrecional, em colisão com as bases fundacionais de uma democracia liberal de matriz europeia.

Eram os tempos da chamada “Aliança Povo/MFA [Movimento das Forças Armadas]”, como a designava o secretário- geral do PCP, Álvaro Cunhal. Todos os sectores estratégicos da economia haviam sido estatizados, vários partidos políticos foram forçados a fechar portas, quase toda a comunicação social passara a gravitar na órbita comunista e instituíra-se um Conselho da Revolução onde só militares tinham assento.

Gota de água
Nas encruzilhadas da História, existe sempre um detonador que funciona como a gota de água que faz transbordar o copo. No caso, foi o silenciamento de duas das últimas vozes não-comunistas nos meios de comunicação,  tomadas de assalto por elementos afectos à ultra-esquerda: primeiro a Rádio Renascença, propriedade do Patriarcado de Lisboa; depois o vespertino “República”, que adoptava uma linha editorial muito próxima do PS. Estas ocupações ilegais geraram um clamor de indignação que ultrapassou, em larga medida, as fronteiras europeias.

Mário Soares, à época ministro sem pasta, decide abandonar o Executivo, acompanhado dos restantes elementos do PS. Uma semana depois, o solitário representante do PPD no Governo imita-lhes o exemplo: a coligação desfaz-se, as tensões polarizam-se. Nasce aí aquele que passou à posteridade como o comício da Fonte Luminosa. No Verão mais quente de que temos memória.

Dias antes, quando membros da cúpula socialista o aconselhavam a marcar um recinto de proporções modestas para o comício, Soares nem quis dar ouvidos a tais palavras carregadas de prudência. Deu um murro na mesa e ordenou: «Mandem já marcar a Alameda!»
E assim foi. Nesse dia, o líder socialista almoçou em Sintra com políticos e pensadores franceses próximos da sua área política, como Michel Rocard, Jacques Attali, Alain Touraine, Gilles Martinet e Jean Daniel. Que lhe exprimiram solidariedade participando no comício.

Pouco antes, a 25 de Abril, tinham-se realizado as prometidas eleições para a Assembleia Constituinte, que funcionaram como um retrato muito fidedigno do País real: a “rua”, instrumentalizada pelo PCP e pela extrema esquerda, não valia afinal mais de 15% nas urnas, como muitos concluíram com espanto ao fazer-se a contagem dos primeiros votos.
Embora os militares se tenham apressado a anunciar que os 250 deputados reunidos no hemiciclo de São Bento se limitariam a redigir a futura Constituição, sem qualquer intervenção no quotidiano político português, aquela votação deu inegável alento às forças antitotalitárias.

Havia que disputar a rua aos comunistas, pensou Soares, com a argúcia táctica que o caracterizava. O secretário-geral do PS, que vivera exilado em Paris entre 1970 e 1974, conhecia bem o potencial magnético das multidões, tão bem utilizado pelo general De Gaulle para conquistar e consolidar o poder na França da V República. Mobilizá-las contra os desvarios revolucionários e os extremistas que proclamam o ódio à “democracia burguesa”, era mais fácil do que parecia. Como se viu.

Ao combater a “rua comunista”, nesse Verão escaldante, Soares contribuiu de forma decisiva para a fundação de um regime. Este em que vivemos.

Da edição nº 5 do Dia 15

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