O alfarrabista ambulante das sete colinas

Não passa despercebido, embora tente. De barba farta e comprida, ao estilo “sikh”, e de sacola de ardina a tiracolo, calcorreia Lisboa de ponta a ponta a distribuir livros pelos seus clientes. Ricardo Ribeiro, conhecido nestas andanças pelo cognome de Sr. Teste, é livreiro há 20 anos, muito ano para quem só ainda tem 39.

A sua plataforma de divulgação são as redes sociais; Facebook e Instagram. Publica, diariamente, fotos de dezenas de livros, identificando o autor, tradutor, número de páginas, a edição, chancela e preço. E associa-lhes, quase sempre, uma música ou uma imagem, como «um jogo de improvisação». É que, além de alfarrabista ambulante, Ricardo Ribeiro é músico de jazz, e, através deste exercício, consegue congregar as suas duas ocupações. «Identifico um livro com uma série de enredos, gosto de criar uma narrativa. É nestes moldes que as novidades são lançadas todos os dias nas plataformas. É um jogo de sensibilidades», explica.

O Sr. Teste funciona como uma comunidade aberta, embora tenha um núcleo base de 100 leitores que lhe compram livros regularmente. Muitas das vendas advêm do que sugere, outras são encomendas muito precisas. E, para conseguir estas últimas, Ricardo Ribeiro é capaz de passar semanas, ou até meses, a vasculhar os fundos de catálogo, o espólio de bibliotecas particulares, a frequentar leilões, ou a cruzar informação com outros colegas alfarrabistas.

Um livro parado dita a sua morte
Começou este percurso em 2000, na Editorial Teorema. Seguiu-se a Livraria Clepsidra, em Massamá, onde trabalhava atrás do balcão. Foi ali que conheceu Catarina Barros, que viria a ser sua sócia nos 140 m² da Livraria Trama, no Rato. A abertura do seu negócio aconteceu em Novembro de 2007. A livraria de bairro, direccionada para amantes de raridades e edições esgotadas, não vingou. Fechou três anos depois. Mas di-lo sem réstia de amargura. Aliás, faz questão de frisar: «Se uma livraria fecha, é porque não faz falta!»

Determinado em continuar nestas andanças, até por uma questão prática — em casa tem um acervo de milhares de livros e, como diz, «um livro parado dita a sua morte, condena-o à asfixia», idealizou este novo modelo de negócio. Começou com um blogue, mas a plataforma veio a revelar-se demasiado lenta e não permitia um contacto tão imediato com os clientes, quando comparado com o FB e o Instagram. De sublinhar ainda o sigilo profissional. Nunca sabemos quem comprou determinado livro. Em público, apenas se vê a palavra “VENDIDO!”. O resto fica nos bastidores, nas mensagens privadas, onde se combina o dia e local de entrega.

«A leitura do mundo é o que me interessa»
É com um enorme sorriso que diz que não podia estar mais feliz: gere o seu tempo, passeia pela cidade, não está preso a um espaço, e mantém uma relação privilegiada com os leitores. Há quem compre três a quatro livros regularmente de uma só assentada e, com isso, Ricardo consegue traçar-lhes o perfil. Trabalha, na sua maioria, com leitores que “saem da caixa”; muitos estão abertos a sugestões, mas também partilham com o Sr. Teste os seus interesses — uma simbiose perfeita. Nos dias em que tem mais vagar, combina a entrega dos livros, sempre embrulhados em papel pardo, num local onde possam ficar a tertuliar. E não é raro ver-se um grupo de pessoas à volta da mesa a discutir autores, títulos, géneros, com grande entusiasmo. Ao longo de dez anos como Sr. Teste, Ricardo conseguiu criar uma comunidade literária sólida.

Depois, tem ainda as suas edições próprias, que publica através da ignota. «Qualquer pessoa que mexe com livros tem tendência a editar. São edições muito específicas, reedito títulos há muito esgotados ou que considero pertinentes, que já perderam os direitos de autor ou, noutros casos, que são de livro acesso», contextualiza. Cada edição tem uma tiragem média de 100 exemplares, por conseguinte, também elas uma raridade.

Mas os seus compradores não se limitam a Portugal. Vendeu, em Julho, através do Instagram, um livro do Herberto Helder para um leitor em Veneza; a “Apresentação do Rosto”, uma autobiografia nunca reeditada pelo autor. “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, foto-livro com fotografias dos arquitectos Victor Palla e Costa Martins e poemas de vários autores portugueses, livro de culto publicado em 1959, foi a edição mais cara que vendeu até hoje. Mas não quis adiantar o valor, por uma questão de sigilo profissional. Este é o único meio de subsistência de Ricardo. E chega-lhe perfeitamente.

Da edição nº 5 do Dia 15

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