«O Brexit é filho do nacionalismo»

Aclamado como um dos melhores livros dos últimos tempos, “Em tudo havia beleza” está a deixar leitores de todo o mundo a chorar. Depois da resenha publicada na última edição, aproveitamos a visita do escritor espanhol a Portugal para o entrevistar. Falou-se de famílias, de amor, de números de telemóvel, e até de cores. Depois deste fenómeno estrondoso, Manuel Vilas diz-se receoso: «Tudo o que escrever daqui em diante será uma tremenda responsabilidade.»

Que há na relação entre pais e filhos que produz tanta matéria literária?

Porque a relação entre pais e filhos é um tema universal. Está inscrito na his­tória da Humanidade, desde há 2.000 mil anos até aos tempos actuais. Os seres humanos cons­tituem famílias, as famílias são os pais, as mães, os filhos. E to­dos nós somos filhos de alguém. É um tema universal. Um ata­vismo. Desde os tempos das ca­vernas, da pré-história, somos pais, filhos, irmãos, sobrinhos… É um tema do coração.

 

Não será pior os pais sobrevive­rem aos seus filhos?

“Em tudo havia beleza” é sobre a perda do meu pai e da minha mãe. Comecei a escrevê-lo de­pois da morte da minha mãe. É um livro autobiográfico. E fala de como perder os nossos pais nos marca, nos abala, nos faz sentir órfãos e desamparados.

 

Mas a dor não será maior quando são os pais a perder um filho?

Pois, claro. Claro que sim! Isso é o pior. Essa será a pior expe­riência que uma pessoa alguma vez poderá viver.

 

Como sobreviver a isso?

É impossível. Impossível. É contranatura. O normal é que sejam os nossos pais a morrer. Nunca os nossos filhos. Perder um filho é uma aberração, uma dor insuportável. Um escritor inglês, o Clive Staples Lewis (1898-1963), disse que… ele era crente, tal como eu, disse que Deus manifesta-se através da dor. É como se Deus abrisse o nosso coração através da dor. Isso era o que ele dizia. Nem consigo conceber a dor que é perder um filho.

 

Pensa na sua morte?

Inevitavelmente. Quando perde­mos os nossos pais é impossível não reflectir na nossa morte. O nosso pai, a nossa mãe… são par­te fundamental de quem somos. A literatura tem a obrigação de recordar aos seres humanos os temas importantes, a vida e a morte. A vida e a morte e o amor que temos pelas pessoas que nos são queridas. Isso é o fundamen­to da vida biológica e cultural.

 

A literatura pode salvar?

Sim. Sim. (hesitação) Reformulo. A literatura pode ajudar. Salvar é que… ajudar, sim. A salvação só de nós depende. Ajuda a com­preender. A literatura ajuda a en­tender, a compreender a vida.

 

Ficamos a saber (pág. 198) que o seu pai morreu com 75 anos, um número que considera misterio­so, porquê?

Aos 75 anos o meu pai ainda não tinha começado a entrar na decrepidez, mas tampouco era uma pessoa jovem. Uma pessoa aos 75 anos não é jovem, mas também não é anciã. Parece uma idade perfeita para morrer. Pa­rece, mas não é. Não sei explicar, é um mistério para mim.

 

O poema “974310439” (pág. 394), liguei para o número. E ouve-se a seguinte mensagem: “O cliente Vodafone para o qual ligou não se encontra disponível.”

Era o número da minha mãe. Existe? A sério que existe? (lon­ga pausa)

 

Era suposto os leitores ligarem?

(hesitação) Não. Existe esse nú­mero? Mesmo? Era o telefone da minha mãe.

 

Pouco sabe sobre o seu avô, isso apoquenta-o?

Suicidou-se. E nunca se fa­lou disso porque era um tema tabu em casa. Incomodou-me muito, nunca consegui conhe­cer a história do meu avô. Es­tava toldado com tanto silên­cio. Ainda hoje nada sei sobre ele, lamentavelmente.

 

Pretende com este livro chegar à verdade, à sua verdade?

Sim. Este livro é uma busca pela verdade de uma família, porque todos nós necessitamos de co­nhecer a verdade da nossa famí­lia. Todos temos uma família. E conhecê-la é fundamental para nos conhecermos.

 

Estava a passar por uma desin­toxicação da dependência do ál­cool, como é que isso se reflectiu na narrativa?

O álcool está muito presente, é um livro 100% autobiográfico. Há cinco anos que não bebo. Não toco em álcool. Bem, foi mui­to complicado. Deixei de beber, divorciei-me, perdi o meu pai e a minha mãe. Tudo está claro no livro, e precisei de o contar porque queria que o leitor visse como era a minha vida, entrasse nela. E, simultaneamente, en­quanto vivia todas estas crises, estava a tentar descobrir mais sobre a vida dos meus pais.

 

O amarelo é uma constante neste livro. Refere-se à dor como sendo amarela, há sofás amarelos, gravatas amarelas, até a cor da monarquia é amarela…

O amarelo é o coração, a loucura, o irracional. A saudade. A sauda­de é amarela.

 

E que cor vê agora?

Amarelo! (risos) Continuo a ver em tudo a cor amarela. É o senti­mento, o meu sentimento.

 

Escolheu uma estrofe de “Gra­cias a la vida”, de Violeta Parra, para epígrafe do livro.

Toda esta obra é um agrade­cimento aos meus pais por me terem dado a vida. Acredito que todos estamos estão em dívida para com os nossos pais. Esta­mos aqui por causa deles. Há que agradecê-lo, a eles.

 

Termina o livro, em jeito de epílo­go, com um conjunto de poemas de amor.

Também sou poeta. E optei por este desfecho porque que­ria que o leitor contemplasse a mesma história a partir de uma outra perspectiva. Os poemas são como um romance, mas em pequenos capítulos, muito con­centrados, muito intensos.

 

Esperava que o romance se tor­nasse num fenómeno tão grande?

Não. Jamais. Foi uma surpresa. E o que mais me surpreendeu é o que conto sobre a minha família ser o mesmo que se passa com todas as famílias dos meus leito­res. E eu que pensava que a minha família era invulgar, “freaky” até. Mas afinal, todas as famílias espanholas são como a minha. É um mistério. Fiquei atordoado. O êxito deste livro reside no facto de a família que aqui aparece, a minha, ser universal.

 

Portanto, muitos leitores identifi­caram-se com o que narrou?

Tantos. E não só em Espanha. Até na Colômbia, e no México, onde o livro também está tradu­zido, as famílias identificam-se com a minha história. O mesmo se passa em Itália. E em Portu­gal também. A família é um tema universal, está em todas as cul­turas, em todo o mundo.

 

Depois de “Em tudo havia bele­za”, acredita que a sua forma de escrever irá mudar?

Sim. Estou até receoso, bastante receoso.

 

Porquê?

(suspiro) Não quero decepcio­nar os leitores. Em Espanha, este livro fez muita gente chorar de emoção. Por isso, tudo o que es­crever daqui em diante… é uma tremenda responsabilidade. É complicado. Não posso decep­cionar. Não quero decepcionar.

 

Como está agora a relação com os seus filhos, melhorou? Estão mais próximos?

Sim. Temos agora uma melhor relação. Embora ainda não te­nham lido o livro. São muito jo­vens. Talvez no futuro o leiam, acredito que sim.

 

Deixou de ser professor universi­tário. Consegue viver exclusiva­mente da escrita?

Consigo. (risos). Embora implique muito trabalho, escrever muitos artigos para a imprensa, muitas críticas literárias. Exige mesmo muito trabalho Mas sim, em Es­panha consegue-se viver da lite­ratura. Eu estou a conseguir.

 

Este livro é também uma crónica de Espanha das últimas décadas e uma radiografia da classe média dos anos 60 e 70. O que mudou desde então?

O livro fala da classe média espa­nhola, que viveu tempos de gran­de transformação até aos dias de hoje, tal como em Portugal. O que se passou é que a classe média dos anos 60 serviu a transição política para a democracia. Quando quis contar a história dos meus pais, dei-me conta que tinha de rela­tar como era a Espanha de então. E conto. Houve a Guerra Civil Es­panhola, o pós-guerra, passou-se muita fome. O conflito terminou em 1939. Foram períodos de mui­ta violência, muitas carências, o meu pai passou tanta fome. Em Portugal não houve guerra. Já em Espanha… viveram-se tempos mudos, de muito medo. E eu ti­nha apenas a percepção que uma criança pode ter. Nasci em 1962. Nos anos 60, a Guerra Civil ainda era um tema incómodo, porque havia duas facções: os que ganha­ram a guerra e os que perderam. Em Espanha, a Guerra Civil conti­nua a estar no debate político ac­tual, e em força. Continua a haver duas Espanhas. Continua a haver a Espanha da direita e a da direita. E tantos anos depois, a Guerra Ci­vil continua a influenciar a políti­ca. É preocupante.

 

Idilicamente, como seria a sua Espanha?

As eleições estão quase aí, em Abril. Apareceu a extrema-di­reita, com o partido Vox. Há a questão da Catalunha, muito complexa, e existem três par­tidos de direita: os Cidadãos — Partido da Cidadania, o Par­tido Popular e o Vox. E dois de esquerda, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o Podemos. Vivemos tempos mui­to conturbados. Ao que acresce o independentismo catalão. O presidente Pedro Sánchez ten­tou chegar a um acordo com os independentistas da Catalunha, mas não conseguiu. Espanha vive um momento complicado, muito complicado politicamen­te. O problema da independência da Catalunha é grave.

 

É a favor de uma República Catalã independente?

(riso nervoso). Eu, que tenho de comer três vezes ao dia, pagar as contas… na minha opinião, nada que esteja assente numa ideo­logia nacionalista é benéfico. Porque é um sentimento que cria facções, e que pressupõe a cria­ção de fronteiras; há os que per­tencem e os que não, sendo que estes últimos passam a ser con­siderados os estrangeiros. O na­cionalismo, a mim, não me con­vence. Num mundo onde estão a cair as fronteiras, universal, de fraternização universal, criar novas fronteiras não me pare­ce moderno. Porquê criar mais fronteiras? Ainda mais frontei­ras? Não! É a minha opinião.

 

Tal como o Brexit…

O Brexit, tal e qual. Lá está, ou­tra fronteira. O Brexit é filho do nacionalismo… nós… os ingle­ses… os outros… os catalães… não! É urgente investir contra esta ideia da necessidade de criar fronteiras. Eu não sou naciona­lista, porque para mim o nacio­nalismo é uma ideologia antiga, é uma forma antiga de ver as coisas. Contudo, sou democrata.

 

E planos para um próximo livro?

Sim, sim, a continuação deste, uma segunda parte.

 

Para quando?

(risos) Ainda não sei. Estou a escrevê-lo.

 

 

Em Tudo Havia Beleza

Publicado em Espanha com o título Ordesa

Manuel Vilas

Alfaguara, 2019

398 páginas

 

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