O burocrata

O burocrata não se importa com o tempo nem despacha enquanto não tiver a medida justa de indefinição, esteja em causa o que estiver.

Comecemos por afirmar com igual certeza que, tal como todos conseguimos materializar em uma ou mais pessoas a caracterização do burocrata, também devemos reconhecer haver utilizado, num qualquer momento da vida mais cinzento, alguns dos truques e subterfúgios de indefinição que lhe conseguimos reconhecer para evitar um comprometimento. Sim, este texto é dedicado àquele director que atrasa a aprovação de atribuição do subsídio de desemprego, ao chefe de divisão que mata a iniciativa deixando-a a aboborar na sua secretária ou ao arquitecto que não admite regularizar uma casa habitada há dezenas de anos porque o seu corredor não tem a largura legal.

O burocrata é alguém que oscila entre uma vida triste e muito marcada pela actividade profissional que exerce e a paixão em exercer o seu poder de não inscrição e comprometimento. O zelo com que cuida de descobrir a lei mais desfavorável ou em fazer aplicar o procedimento mais esdrúxulo revela um superior prazer pela ambiguidade e pelo culto da não decisão.

O burocrata não se importa com o tempo ou consequências da sua não-decisão porque se vê como o fiel zelador da lei, da transparência e da honestidade. Não despacha enquanto não tiver a medida justa de indefinição, esteja em causa o que estiver. O culto da imagem que tem de si prevalece perante a necessidade de resolução do problema.

O burocrata movimenta-se melhor na administração pública do que no sector privado – onde está mais exposto. No Estado, entre longos pareceres doutorais e teses ambíguas, o burocrata é um mestre da perda de tempo. Vive ufano da responsabilidade que tem entre mãos e esgota todos os prazos admissíveis descrevendo a exigência do seu cumprimento como uma forma ilegítima de pressão sobre o seu poder.

A desconfiança sobre os representantes eleitos – os denominados “políticos” – é terreno fértil para a prática do burocrata. Quase sempre declaradamente independente, o burocrata exerce um poder suprapartidário e não tutelado, sabendo que uma frase no seu parecer poderá provocar uma acusação pública contra quem, de facto, detém o poder de decisão. Mas, não nos enganemos, o burocrata mata mais boas iniciativas do que bloqueia más, pois a sua característica visceral é a falta de coragem.

Do ponto de vista laboral o burocrata vê com despeito o sindicato mas sempre que o seu poder é colocado em causa ou alguém lança caça à burocracia, aproxima-se do sindicato. O sindicato passa a tratá-lo como um trabalhador mas será que queremos confundir um burocrata com um trabalhador?

 

Da edição nº 6 do Dia 15

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