O episódio militar mais estúpido da história

Durante anos, Karansébes foi considerado o episódio mais estúpido. Depois veio Tancos.

Estamos em Setembro de 1778. Um exército composto por 100.000 homens, liderado pelo Imperador José II, está estacionado nas imediações da cidade de Karansébes, ali na parte ocidental do território onde fica actualmente a Roménia. Está tudo a ser preparado para a batalha contra uma temível força militar turca que se encontra a umas léguas de distância. O contigente, mal-comparado, é uma espécie de geringonça: integra gentes de diferentes origens (austríacos, lombardos, eslavos, húngaros, boémios e sabe-se lá mais o quê) que nem sempre se entende pois fala diferentes idiomas, reunidas com o único propósito de assegurar a sobrevivência política do Imperador. Durante a noite, numa operação de reconhecimento, um pelotão de infantaria intercepta uma trupe de saltimbancos e apreende comida e um número apreciável de barricas de schnapps, aguardente e vinho. Este fim de Verão está excepcionalmente quente, apesar de não existirem, ainda, conferências sobre as alterações climáticas, nem livros do Al Gore. A soldadesca refresca- se com entusiasmo. A alegria mal contida chega aos ouvidos de uma brigada de cavalaria que também tem sede. A cavalaria pede schnapps. A infantaria não está pelos ajustes. Então e vinho? Também não. Aguardente? Nope. Para se ter uma ideia da intensidade da discussão, é como se tivéssemos a Dra. Catarina Martins a pedir ao Dr. Costa que baixe o IVA da Electricidade. Baixa lá. Não baixo. Ó, baixa. Já disse que não baixo. Tu prometeste. Também prometi acabar com a austeridade, não foi? E também prometi contar o tempo de serviço aos professores, pois foi? E o Centeno também deu garantias ao António Domingues, não é? Por favor? Escusas de fazer beicinho. Só uma vez? Népias, nicles, rien. E se for só um chichinho? Nem que a vaca voadora tussa. A diferença é que, neste caso, a cavalaria tinha mesmo sede. Temos então grupos de infantaria e de cavalaria do exército de José II em acesa disputa. Há palavrões, empurrões, começa a porrada. Alguém perde a cabeça e rompe aos tiros. No acampamento, convencem-se que o inimigo chegou. Os Turcos, os Turcos, os Turcos! O pânico instala-se. Um oficial austríaco apercebe-se que tudo não passa de um tremendo mal-entendido e tenta pôr ordem na casa. Grita halt, halt, halt! Mas os húngaros, os eslavos e os outros todos não falam alemão. Em vez de pararem, em cumprimento da ordem, pensam que alguém clama por Alá, o grito de guerra do inimigo. É como daquela vez, há cerca de um ano, em que o Dr. Costa afirmou peremptoriamente que o Infarmed jamais sairia de Lisboa e nós, lombardos, percebemos tudo ao contrário e ficámos convencidos que o bom homem tinha prometido a deslocalização para o Porto. Adiante. A partir do momento em que os soldados se convencem que se grita por Alá, a selvajaria é total. Há golpes, investidas, salvas, catanadas, disparos, dentadas, pontapés, punhaladas e cargas de baioneta em todas as direcções. O imperador José II, estremunhado, assume as rédeas do seu ginete em ceroulas e barrete. Mas o cavalo espanta-se e o Imperador vê-se subitamente a exercer o império, de cócoras e encharcado, no meio de um riacho afluente do Danúbio. Quando finalmente amanhece, o cenário é dantesco. O número de baixas é terrível. Há litros e litros de schnapps, aguardente e vinho derramados. As ceroulas do Imperador José II estão cheias de lama e o exército austríaco está derrotado pelo fogo amigo dos seus  próprios soldados. Os otomanos, lá à frente, arranjam as unhas e preparam um banho turco. Durante muitíssimos anos, Karansébes foi considerado o episódio militar mais estúpido da História. Depois… Bem, depois veio Tancos.

Da edição nº 6 do Dia 15

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