O filósofo não é um sábio numa torre

Estudioso de Aristóteles, apaixonado por Heidegger, vê a vida como sendo de trânsito simples, o que o impede de aburguesar-se. Após 28 anos dedicados ao ensino da Filosofia, observa que o Homem é pouco dado à reflexão, por preguiça. Fez parte dos Mata-Ratos, mas isso já lá vai; é um capítulo encerrado. Falámos com António de Castro Caeiro na Editora Abysmo, por ser «a sua casa, a sua Motown».

Nasceu em Lisboa, em 1966. Dá aulas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas desde 1990. É membro da Sociedade Ibérica de Filosofia Grega, Mestre em Filosofia Contemporânea, e doutorado em Filosofia Antiga. Pratica muay thai, depois de 36 anos de karaté, e tem tantos projectos na calha que somente isso já daria uma página.

Caeiro professor, filósofo, escritor, tradutor…

Sou professor. Aprendi com professores que aprenderam com os alemães. É uma forma de estar dedicada às artes cénicas, à encenação. Há todo um método de expressão oral, de fazer ver os pensamentos. As pessoas mais importantes da minha vida foram professores, desde a pré-primária. Sempre pratiquei desporto. Aos 14 anos, os meus mestres de karaté eram as pessoas mais importantes, desconstruíram a arte marcial numa forma de expressão da vida. Agora, vejo como as pessoas andam, questiono-me se praticam artes marciais, se são ágeis, avalio as pessoas na rua.

Já a filosofia, é uma forma de equacionar a vida. O filósofo não é um sábio encerrado numa torre de marfim. É uma forma particular de estar, de estar exposto a formas avassaladoras, que assumem o quotidiano, a rotina. Pode vir na forma de um poema, de uma pintura, de uma fotografia, de um encontro ou desencontro.

Estou aberto ao que chamo a vida, a existência. Estou ligado a todos os acontecimentos. Essa atenção particular anula o carácter dogmático com que as cores, texturas se apresentam. Nada fica por resolver, porque as coisas não se apresentam de uma forma resolvida. A banalidade de uma vida pode ter no diário qualquer coisa. A filosofia individualiza-nos no encaminhamento da morte. O confronto com a doença mortal, que é a vida, pode vir de várias formas; na compreensão da mortalidade, da finitude crónica. É isso que me interessa.

A filosofia pode mudar o mundo?

Há várias respostas contraditórias. Não pode, é uma delas. Na nossa autobiografia, podemos escolher talvez apenas dez momentos em que há uma relação completa. O mundo muda porque o mudamos completamente. Ninguém percebe que a realidade que vemos é completamente diferente. A anterior é como um abcesso do que éramos em relação ao passado. Ou então, muda tudo. Passamos a ver diferenças na nossa casa, no corredor, nos dias de Sol na Primavera quando éramos crianças. E não conseguimos recuperar esse momento ingénuo.

Com a rotina, isso esbate-se. Nesse sentido, a filosofia implica que a vida se atravesse, que se imponha como um problema; a finitude temporal. Em vez de um horizonte aberto, a imortalidade da juventude, vemos a angústia do constrangimento, “os biombos da morte” (Tolstoi). O mundo dos infelizes é um mundo diferente dos felizes (ética aristotélica). Nesse sentido, muda.

Não no sentido em que Marx e Engels pretendiam, de transformar o mundo; porque não há terminais de intervenção, onde o aparelho do Estado intervencione cirurgicamente. O corpo deixa de ser o individual e passa a ser o cidadão, o Estado. Por outro lado, a filosofia pode preparar um conjunto de problemas que demoram séculos a serem pensados. Problemas do espaço, da matéria, são postos. Os problemas são os mesmos, em paradigmas completamente diferente. Um pensamento filosófico pode não morrer com o seu autor, não fica encerrado nos seus livros. Por isso, os livros não são relatórios, encerram em si pensamentos que, apesar de congelados durante séculos, têm um “pop out”, a determinada altura, através de outros.

A forma como se pensa o tempo, o outro, são formas complexas e intrincadas de problemas, como peças de um puzzle. Pensar o mundo, nesse sentido, é uma forma de o transformar. A filosofia descobre: eu sou a vida, eu sou o mundo. À escala universal. Deixo de agonizar o mundo, deixo de estar à janela do mundo, e passo a ser absorvido. Nós somos as pessoas das nossas vidas. Uma resposta só vem se a pergunta for bem colocada. A filosofia é a interrogação, uma forma de cepticismo que nos tira da zona de conforto.

A virtude na filosofia, do que se trata?

Questão complexa.

Pode ser vista como um problema local, um conjunto que ficou conhecido com os éticos. Ou então, na perspectiva se, enquanto actividade humana, é uma virtude ou uma doença. É a história de cada um de nós. Temos uma versão pública, privada, secreta, e está bem assim. São diversas camadas que se sobrepõem umas às outras, que nos tornam vulneráveis. Somos diferentes consoante as circunstâncias, somos uma multidão de gente. Estamos em direcção a nós, mas não estamos resolvidos, não estamos feitos. A felicidade exerce uma pressão enorme sobre nós, a competência profissional, a pessoal; não conseguimos formular quais são os nossos desejos mais selvagens. Não temos um breviário, uma espécie de “kit”, que nos permita resolver esses problemas.

No limite, a filosofia pode ser uma virtude correctiva ou uma doença, que não nos dá por satisfeitos. Uma inquietação contínua. Há pessoas que não conseguem estar quietas, uma provocação da inquietação; é muito cansativo. Pode ser uma espécie de obsessão compulsiva pelas tarefas, percebemos que não estamos em nós. Temos de estar constantemente a tirar férias de nós. Não queria, por um lado, nunca dizer a um filho de um amigo que se estudasse filosofia podia ficar perturbado para sempre. Mas, por outro, não vejo a vida de outra maneira; o que significa que há uma forma de autópsia, ou auto-reconhecimento de desadequação à vida. A única forma de atenuar o problema que é estar vivo é viver nesta homeopatia, ao ponto de ficar dessensibilizado das crises de angústia.

É uma possibilidade humana que resulta do facto de o reconhecimento de todo o ser humano ser naturalmente filosófico: todos nós pensamos na vida. Depois, há a noção de virtude na perspectiva ética, que corresponde a diversos quadros na compreensão humana, as chamadas virtudes cardeais: a temperança, a moderação, o controlo, a coragem, a justiça, a sabedoria. Temos quadros completarantes vimente diferentes. Esta é a filosofia clássica vista no aspecto do herói da epopeia grega: ser o melhor de tudo, o melhor possível.

Podemos querer ter uma vida que possa ser cantada, completamente diferente de uma vida que tem a ver com a realização do projecto. O Homem contemporâneo tem outro tipo de resolução, outra forma de viver. Existem cada vez mais pessoas desagregadas, uma americanização do mediterrânico, mesmo que sejamos atlânticos.

Há um desconchavamento da ideia de família, um adoptar de questões fracturantes, a tentativa de defesa de classes inferiores do proletariado, dos conflitos rácicos, da homofobia. Há uma geração mais nova que está empenhada na transparência, em defender as ditas minorias. Sendo que o enfoque no conflito é complexo. Ou seja, uma virtude pode ser a defesa das minorias. Outro exemplo é o de querer viver na solidão, o de querer estar disponível para que os pensamentos venham. A sobrevivência também pode ser uma virtude, a tentativa de subsistir, de insistir, de resistir. Esse é um projecto muito contemporâneo. Há vários quadros éticos diferentes, de época para época, de pessoa para pessoa.

Como vê Portugal, a sua identidade?

É difícil responder. O meu pai era um patriota. Não confundir com nacionalista. Todos os povos têm essa ideia de povo eleito. Comecei a identificar maneiras especificas do ser português quando fui para a Alemanha, tinha 20 e poucos anos. Aí, existe um olhar retrospectivo, uma espécie de recorte do cidadão que eu era. Descobri os valores nacionais, a vida em família, a língua, as saudades. Em cada um dos cidadãos do mundo existe a possibilidade de nos reconhecermos pertencentes a uma comunidade quando estamos fora dela. Somos sempre estrangeiros quando estamos fora do nosso país. São formas de descoberta do que é ser português. Natália Correia descrevia-o muito bem.

Há uma forma particular de construíres o teu Portugal. Depois, somos muito antigos como portugueses. Se não falarmos de política, estamos bem. Tenho amigos de todos os quadrantes, mas acho que nada do que é humano me é estranho. Todos gostam de tomar uma posição, de identidade pessoal. A ideologia não salva, acho. É o meu problema que tenho de resolução existencial. O problema da portugalidade é o mesmo do ibérico, do hispânico, do gaulês, nas diversas federações da URSS; podemos perceber que essa pergunta é feita em todos os países. Não há matemática protestante e católica. A interrogação parte sempre de onde é que me encontro no mundo. Calha ser em Portugal, com as suas idiossincrasias históricas. Há tantos “portugais” quanto as pessoas que existem, as que pensam.

A abordagem política não me interessa. É-me completamente avessa a ideia de afirmar a minha portugalidade para me distinguir dos outros. Vivi anos no estrangeiro, mas gosto de Portugal. Não quero reconstruir tudo, é cansativo. E estou velho. Daqui a oito anos faço 60. Gosto de viver em Portugal, mas não tenho nada de interessante a dizer sobre Portugal. Vejo-me mais como Sócrates: sou um cidadão do mundo. Gosto da ideia da identidade nacional, patriótica, não quero abdicar de Portugal. A diversidade é o que faz a riqueza do humano.

Quer falar sobre o seu pai? A morte? Como a encara? (o pai morreu em Fevereiro de 2016, após uma longa agonia)

Marguerite Yourcenar tomava a morte como amiga.

Morrer coincide com o viver. Nós vivemos a morrer, estamos em contagem decrescente, como se tivéssemos bilhetes para cada dia. O estar vivo é estar no encaminhamento da morte. O caudal de tempo passado aumenta à medida que a vida flui. Estamos numa situação mortal, somos mortais construtivamente. A relação com a morte é a relação com todo o tempo da eternidade. O tempo finito é compreendido como a totalidade do tempo a haver, sem mim cá, e sem eu ter uma relação comigo. Como se tivesse entrado em coma. Quando encaro a morte, entendo o dia seguinte sem mim cá, sem ter acordado, sem o nascer do Sol, sem os encontros, ou, também, sem o sofrimento atroz, a ideia do alívio, do suicida, a ideia de paz, do sossego para todo o sempre. Um confronto que põe a vida com o sal da Terra. Uma forma que pode ajudar à transparência.

A vida é um trânsito simples, de etapas, não me deixa aburguesar-me. Todas as situações de limite têm a presença do meu pai. Vi-o a morrer, a perder o reconhecimento de si, com a doença de Alzheimer. Tenho a presença dele ausente, mas também tal como era. Sei que não fiz tudo, mas também não sei o que poderia ter feito antes para o ajudar. A morte do meu pai não está resolvida, é um escândalo absoluto. Como é que alguém pode morrer nessas circunstâncias, todo transfigurado. É como os amores: mesmo que cheguem a uma ruptura, nunca morrem. Lembro-me muitas vezes dele, invoco-o muitas vezes. Não há paz.

No Precipício Era o Verbo, projecto para contrabaixo, poesia e declamação, é para continuar?

Está vivo, mas não a pontapear como queríamos. Demos um concerto no Teatro A Barraca (Lisboa) que foi excelente. E, este ano, temos actuado regularmente, mas não tanto como gostaríamos. Nem sempre é viável, as pessoas não têm dinheiro para contratar. Já pagamos para viajar, o alojamento. O José Anjos, o Carlos Barretto e o André Gago vivem disto. Mas revisito esse sítio com muito carinho. O projecto nasceu na casa do Carlos Barretto, aos domingos. Montámos aquilo de pé com a coreografia do nosso maestro, o José Anjos.

Quando voltamos a ensaiar para um concerto é uma alegria, como estar nos Mata-Ratos de outrora. Também resultou num livro com CD, com ilustrações do André da Loba. Todos nos orgulhamos disso, inclusive o João Paulo Cotrim, o nosso editor, da Abysmo.

E o programa da RTP “É um Clássico”?

Terminou, infelizmente. Não vai voltar, com muita pena. Foi um exercício de meter o Rossio na Betesga. Foi penoso no início, não sabia o que fazer às mãos, mas a prática aumenta a “performance”. Porém, a RTP não quis fazer mais cinco programas, correspondentes aos livros que viriam a ser lançados pelo jornal Público. Agora, tenho a ideia de pôr de pé um novo programa televisivo de filosofia, não estritamente filosofia pura e dura, mas com perguntas concretas, sobre a identidade nacional, a portugalidade, e expandi-las para interesses concretos do ponto de vista filosófico.

Já tenho dois episódios projectados.

Quanto a livros?

Estou prestes a publicar textos perdidos de Aristóteles que traduzi em 2010, através da Abysmo. A “Constituição dos Atenienses” contém descrições maravilhosas sobre as trufas na Sicília, os mitos da fundação de nações que Alexandre, o Grande foi encontrando. Ao todo, são 56 fragmentos. Outro projecto trata da organização das instituições, fundamentais da democracia grega. Virá a lume em Setembro, igualmente pela Abysmo.

É um trabalho académico, mas popular; divertidíssimo. Depois, seguir-se-á a publicação de uma prelecção sobre “No Future”, um dos temas que será abordado este ano no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos. Vai ser uma lição sobre o Apocalipse. Não sei bem ainda qual a abordagem, se religiosa, sobre textos contemporâneos, sobre a angústia ou tédio de Heidegger; talvez entrecruze uns e outros.

Também irei lançar um livro sobre os Mitos de São Vicente. E ainda outro, mais académico, sobre a pessoa como entidade jurídica, uma arqueologia da noção de si. Por último, acabei de traduzir poemas do austríaco Georg Trakl, que está a ser revisto por Miguel Martins, e que também saírá pela Abysmo.

Por fim, porquê a escolha da editora para a nossa conversa?

Por ser um sítio neutro. Não queria que fosse na faculdade, no meu gabinete inóspito, nem numa esplanada, rodeados de ruído.

E faz todo o sentido que seja aqui, esta é a minha casa, a minha “Motown”. O João Paulo Cotrim (editor) e a sua mulher, a Isabel Amaral, fazem um trabalho notável, o de publicar livros dos outros. Essa é uma das principais razões para eu estar em Portugal. Aqui conheço poetas, ensaístas, ilustradores, artistas plásticos. Ocasionalmente, encontramos- nos todos, anda tudo à volta do nosso editor, que merece todo o nosso apoio. Em suma, consegui assim excluir todos os sítios onde não me iria conseguir concentrar para falarmos. Aqui encontro uma afiliação orgânica, natural.

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