O preço da civilização

Ana Vidal

A civilização tem sempre um preço. Às vezes, muito alto. E esse preço dá, quase sempre, pelo nome de coerência.

O Humanismo que define a Civilização Ocidental, apoiado nessas tábuas sagradas dos Direitos Humanos de que tanto nos orgulhamos, impõe-nos frequentemente dilemas éticos e impe­rativos de consciência que não podemos ignorar. Fôssemos nós selva­gens justiceiros e tudo seria muito mais simples, olho por olho, dente por dente, cá se fazem cá se pagam, quem com ferros mata com ferros morre. Mas não somos. Pelo contrário, gostamos de exibir os galões de uma sofisticação cultural que nos dá uma certa aura de superioridade perante a barbárie, nos faz acreditar terem valido a pena tantos milé­nios de evolução. O problema é quando esse polimento civilizacional é posto à prova por situações que nos testam os limites, remetendo-nos para a nossa condição primordial de seres defensivos, simples animais em luta pela sobrevivência. Porque é aí, sempre aí, que o trigo e o joio se desentendem e a bela camada de verniz que adquirimos, afinal tão frágil, se estilhaça com a maior facilidade. E o que vale para cada um de nós, individualmente, vale também para uma nação.

Vem isto a propósito de uma situação inédita, impensável até há pou­co tempo: a iminência de termos de dar destino, como país soberano, às viúvas e filhos menores de cidadãos portugueses que aderiram ao Daesh e se dispuseram a integrar um temível exército de radicais islâ­micos numa guerra sem tréguas contra o Ocidente. Uma guerra cega, injusta e de uma violência extrema contra populações desarmadas, impotentes, vítimas escolhidas a eito em nome de uma causa de puro ódio. Derrubados os últimos baluartes organizados do Califado, as tele­visões trazem-nos aflitivos mares de mulheres capturadas, arrastando mil crianças famintas e doentes em campos de detenção provisórios. No meio dessa amálgama indistinta estão mulheres europeias, igualmen­te reduzidas a imprecisos trapos negros desprovidos de identidade ou qualquer traço de individualismo, tratadas como carne para canhão ou como escravas por carrascos que, algures no tempo breve de uma es­colha romântica, lhes terão parecido príncipes encantados. A ilusão de aventura cedo terá descambado num pesadelo sem saída. Ou talvez não.

O que fazer com estes incómodos fardos entrapados? Um país civi­lizado vela pelos seus cidadãos, disso não temos dúvidas, pelo me­nos em abstracto. Mas a verdade é que tememos esta gente e temos boas razões para isso. A verdade é que, à excepção das crianças (que merecem inequívoca protecção e uma vida livre de mais horrores), estas mulheres fizeram uma escolha livre ao aderirem a uma causa amplamente documentada e já com muitos atentados sangrentos no curriculum. E, se não foram elas próprias a mão que mata, foram pelo menos as enfermeiras, as cozinheiras, as donas “de casa” que asse­guraram condições de vida aos terroristas do Daesh. Devem, por isso, ser responsabilizadas pelos seus actos. Mas como? Com que grau de segurança nacional? O Estado português, como outros na mesma di­fícil situação, está a braços com este dilema e a tratar do assunto com pinças, como não podia deixar de ser. Porque estas mulheres sabiam ao que iam, mas nós não sabemos ao que elas vêm. Quando vemos e ouvimos o tom arrogante com que uma delas exige, numa entrevista, a repatriação rápida e sem consequências, criticando sem hesitações um país que demora a trazê-la para os braços da família depois de uma provação em que parece considerar-se inocente, ficamos sem saber o que pensar. Pior, pensamos que alguma coisa está errada nesta equa­ção. E é nesse momento que percebemos que a civilização tem sempre um preço. Às vezes, muito alto.

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