Onde é que fica o caroço da verdade?

Há dez anos que escreve à razão de dois livros por ano. Além disso, é ilustrador, cineasta e músico. E um viajante “crónico”.

Falamos de Afonso Cruz, cujo último romance, “Princípio de Karenina”, perverte o fundamento de Tolstói, questionando o que é isto de uma família feliz?

Phobos, a unidade métrica no seu último livro, “Princípio de Karenina”, é a personificação do medo na mitologia grega?

Medo e pânico. Phobos e Deimos. A minha prima tinha dois gatos como esses nomes. (risos) Mas indo ao livro, associar distância ao medo é natural, as pessoas criam as suas rotinas, o seu lar é um local de segurança, em que a surpresa é reduzida ao mínimo. Sabemos exactamente onde é que estão as coisas e não queremos que mudem de sítio. E a partir do momento em que saímos de casa começamos a encontrar desarrumação, alguma imprevisibilidade, desconforto, assimetrias. E à medida que nos afastamos desse centro de conforto e rotina, quanto mais estranho for o espaço geográfico, mais isso é evidente.

Vladimir Nabokov vs. Liev Tolstói, qual a relação?

A única é que no princípio deste romance fala-se da frase do Tolstói, pervertendo-a. E para este livro, precisamente porque eu não acho que seja aplicável o Princípio de Karenina à frase do Tolstói sobre a felicidade, encontrei essa corroboração junto da Ursula K. Le Guin e do Nabokov.

Vê maldade no mundo? Tem sempre uma mensagem tão positiva…

(risos) Não sei se tenho sempre uma mensagem positiva. Sim, obviamente que sim. Considero que há dois tipos de maldade: uma intencional, que identificamos com o ser humano, uma maldade natural, que pode acontecer decorrente de um evento, imaginemos um terramoto ou um furacão, que destrói uma série de coisas; e uma maldade pérfida, uma malícia. Curiosamente tentamos, de alguma forma, resolver esse fosso entre uma maldade e outra. A maldade no nosso mundo não tem substância, não existe; o cristianismo foi criado no seu corpo erudito sem a existência do mal. Era muito importante para Santo Agostinho, por exemplo, que não gostava dos maniqueus (adeptos do maniqueísmo) e do Deus dos Persas, porque era um Deus que não era omnipotente — era absolutamente bom, mas incapaz de derrotar o mal. Portanto, ele combatia um Deus mau e isso, para Santo Agostinho, não correspondia ao Deus omnipotente e absolutamente bom. Então, a resposta dele foi buscar inspiração platónica e dizer que o mal não existe, é uma privação do bem, uma ausência de bem, assim como a escuridão é uma ausência de luz, o frio a ausência de calor; fisicamente não existem. Daí que paguemos a luz, mas não paguemos contas de escuridão, porque esta última não é negociável, não conseguimos dominá-la, é uma pura ausência. Visto assim, o mal para muita gente é uma ausência, que magoa, assim como a fome é a ausência de comida, a magreza é a ausência de gordura. E magoam igualmente. Mas o facto de não terem substância não quer dizer que não nos aleijem. Podem não existir enquanto substância, mas têm consequências muito graves nas nossas vidas.

Leia a entrevista na íntegra na edição n.º9 do DIA15

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