Quando cada trago sabe a amor

O irlandês W.B. Yeats tem um poema, “Uma canção de beber”, que parece ter sido escrito à medida para esta história: um projecto de vitivinicultura que nasceu de um grande amor. Eva Moura e Artur Gama queriam voltar às raízes. Viram uma quinta onde há mais de um século se faz a vindima manualmente. Compraram-na. Viajemos até à Quinta da Boa Esperança.

Nas terras da Zibreira, no concelho de Torres Vedras, entre a costa marítima e o campo, o casal viu crescer naquela pro­priedade o seu sonho, um espaço que reflecte o seu modo de pensar e viver, num ambiente histórico e rural. O projecto começou a ga­nhar forma quando adquiriram, em 2014, a quinta e os seus ter­renos, num total de 10,5 hectares de vinhas velhas de 15 anos, que já existiam no local. O passo se­guinte foi apostar na expansão da propriedade. E assim nasce a Quinta da Boa Esperança, uma empresa familiar com uma no­tável consciência ambiental. O respeito e a responsabilidade para com a natureza é o cunho da empresa. Até o logótipo da marca manifesta esse desígnio. Inspira­do num embutido de um armário antigo encontrado na casa, sim­boliza a natureza, a sua protecção e a cooperação envolvente.

Numa das maiores regiões de vinho a nível nacional, a qualida­de e exclusividade que envolvem todo o processo, desde a apanha da uva ao consumidor final, são os pilares deste projecto.

A propriedade trabalha hoje com vinhas novas e velhas, numa área total de oito hectares de vi­nha em produção, nove hectares de vinha plantada e, a curto pra­zo, prevê-se a plantação de mais 1,5 hectares; o azimute ainda é um segredo.

Os vinhos da Quinta da Boa Esperança caraterizam-se pela salinidade, mineralidade e fres­cura, resultado da localização: numa encosta com direcção nas­cente/poente, a cerca de 20 km da costa atlântica, com a melhor exposição solar possível para a maturação das castas tintas, juntamente com os solos argilo­-calcários. E quando as uvas não cumprem os requisitos deseja­dos, são vendidas a granel; o que explica a diminuta produção. Ao todo são já 11 referências, todas muito limitadas, geralmente a rondar as 3.500 garrafas, sobre­tudo quando se tratam de castas monoparentais, a grande aposta da casa.

A narrativa desta propriedade ainda é curta — aliás, apenas foram produzidos lotes de três colheitas (2015, 2016 e 2017), mas é intenção dos proprietá­rios criar ali, no bucolismo do campo, sarapintado por moi­nhos eólicos, uma comunidade orgânica de partilha, razão pelo qual Eva e Artur estão já a dar os primeiros passos na área do enoturismo, harmonizando os seus vinhos com uma gastrono­mia simples, mas de excelência. As melhores coisas da vida são despretensiosas, e tudo o que acontece na Quinta da Boa Es­perança é prova disso. Só é pena que ainda não se possa pernoi­tar, mas tudo a seu tempo.

Voltemos à essência dos vinhos. O método de vindima manual foi mantida pelos actuais proprie­tários e a escolha de cada rótulo é pensada ao pormenor; nada é deixado ao acaso, desde a textura ao tipo de papel. E isso é evidente em cada garrafa, com um cunho especial e genuíno.

O conceito das vinhas susten­táveis, o empenho na vindima manual, a sustentabilidade em todos os processos e a harmo­niosa coexistência do homem com a natureza traduzem-se num vinho autêntico, de grande excelência. Há muita magia em cada gole, e muito amor também. Sente-se. Saboreia-se.

A chave da experiência de visi­tar a propriedade é provar o vi­nho e captar a essência da região. Garanto-vos, está tudo lá.

Enólogos

Paula Fernandes é a enóloga re­sidente desde finais de 2014. O seu percurso passa por várias adegas, como a José Maria da Fonseca ou a Sociedade Agrícola Dona Joana. Fez parte da coor­denação do Catálogo Nacional de Variedades e, em 2009, a sua tese de mestrado sobre os comporta­mentos das castas Touriga Na­cional e Syrah em diferentes ter­roirs valeu-lhe várias distinções. Já Rodrigo Martins é o enólogo consultor da quinta. Passou pela Quinta de Pancas e pela Adega Cooperativa de Alcobaça. Actual­mente, é júri no International Wine Challenge.

 

Artigo publicado originalmente na edição n.º11 do DIA15

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