«Se não tiverem amor pela profissão, desistam!»

Cortador de carne no Hospital Garcia de Orta, todos o conhecem por “o Pereira”. Começou a trabalhar com 14 anos, em 1970. Agora está reformado, mas não suporta ficar parado. Conversamos enquanto aguardava que a sua mulher chegasse do trabalho, para depois, juntos, irem limpar uma creche.

Deixou Torres Novas para trabalhar num hotel no Estoril. «Era um jovenzinho, não havia idade para começar», contou. Foi viver com uma irmã, até arrendar um quarto. «Aprendi muito, aos trambolhões. Foi uma vida dura até aos 19 anos», prosseguiu.

Com a 4.ª classe, depois de passar por várias unidades hoteleiras, surgiu o convite para o Casino Estoril. Aceitou, mas ficou pouco tempo. Não se via a trabalhar de noite e a dormir de dia. Com 18 anos, trabalhar na área da restauração era o seu sonho, e desmultiplicou-se por vários empregos, tantos que se esqueceu de se apresentar à tropa.

Em 1980, foi dado como refractário, mas por descuido, não era essa a sua intenção. A viver, à época, no Estoril, aos 20 anos foi fazer a recruta na Artilharia, em Cascais. No fim, o comandante enviou-o para a Póvoa do Varzim, para ficar a tomar conta da cozinha. Chegou a Primeiro-cabo. Saiu da tropa após dois anos.

Decidiu, então, fazer um interregno; foi para Angola trabalhar nas plataformas petrolíferas. Também passou pela Nigéria. «Sempre muito duro», continuou. Regressou a Portugal, casou em 1982, e tem três filhos. «São maravilhosos, embora não queiram saber de mim. É triste, mas não vou perder a minha vida a pensar nisso.» Separou-se anos mais tarde. Mas, antes disso, voltou para a restauração, em empresas como a Eurest e a Gertal. «Habituei-me a ganhar bem, só que… tive umas rixas, as pessoas não têm amor ao trabalho.»

Foi cozinheiro em vários hospitais, desde o São Francisco Xavier, ao de Santa Cruz, passando ainda pelo Santa Marta e Santa Maria. Tantos que nem os enumera a todos. No de Santa Cruz, ficou- lhe na memória o presidente Jorge Sampaio, que ali foi operado ao coração. «Era muito simpático.

Quando lhe perguntavam o que queria comer, respondia: o que os outros comem! Sinto muito orgulho naquele homem e de ter cozinhado para ele.» Trabalha no Garcia de Orta de há 17 anos para cá. Reformou-se aos 61, após 48 anos de serviço, mas estar em casa estava a deixá-lo «paranoico». Entretanto, entrou para o seu lugar uma pessoa «muito arrogante, cheio de mania, grita com os trabalhadores».

A administração hospitalar convidou-o a regressar. Aceitou com uma condição: ser a recibos-verdes. É responsável pelos cortes de carne. «As pessoas adoram trabalhar comigo, eu não grito. Não as mando trabalhar, peço-lhe com respeito. Temos de ser humildes.» Questiona onde é que está a Gertal que conheceu há 30 anos: «não forma as pessoas para aprenderem a cortar um bife, a desmontar uma peça de carne; como é que um chefe de cozinha de um hospital não sabe cortar carne? Ridículo!» «Se não tiverem amor pela profissão, desistam. Em qualquer trabalho, é preciso ter amor por aquilo que se faz», insiste.

Pereira constata que qualquer um se pode apresentar como cozinheiro. «E quando vamos a ver, não sabem fazer nada. Mas como há falta de profissionais, aceita-se.» Considera a reforma justa, recebe 1.400 euros. «Acabei o meu “reinado” com 2.000 €/mês. A minha reforma é fruto dos descontos.» Segundo ele, muita gente diz-lhe: «Ó Pereira, reformaste-te, ganhas bem, e estás a tirar emprego a outros.»

Não há pessoas, observa. «Já tive na cantina pessoas para lhes dar formação, para cortar carne, e foram embora, dizem que é muito trabalho.» Corta muitos bifes por dia. «Hoje foi vaca para os doentes a dieta e porco para o geral. E há ainda o refeitório, tenho de cortar carne para os bitoques.

Amanhã tenho 60 kg para limpar, para cortar aos quadrados, que é para uma carne à irlandesa, coisas que o doente come», explicou. Pereira continua: «Trabalhar num hospital tem muito que se lhe diga, não é carne para canhão. Os doentes estão lá porque estão doentes, têm de ser tratados como reis. Sempre pensei assim.

Mas há pessoas que dizem que aquilo não é nenhum hotel», lastima. «As pessoas, quando querem abraçar uma profissão, têm de a amar. Se assim não for, desistam. Sou polivalente, sou como a Toyota. Faço tudo com amor. Os doentes nunca deixam de comer.» Daqui a dois anos, espera ir viver para o monte que comprou no Alentejo.

Com a sua segunda mulher, quer acabar lá os dias, esperançosamente até aos 100 anos. «O meu pai morreu com 93, nunca parou. Se eu parar, vou desta para melhor, portanto, vou ver se o ultrapasso. Vou fazer uma corrida contra o tempo.»

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