Série do mês | O passado é um mundo novo

“Castle Rock” deverá encher as medidas de fãs e não fãs de Stephen King. A série, estreada globalmente via Hulu, é uma história de terror que é também uma peça dramática de primeira água, ao mesmo tempo familiar e totalmente nova.

Stephen King é um daqueles escritores muito bons mas que a maioria das pessoas que se interessa por escritores muito bons não lê nem quer saber, porque ele se dedica a um género com fraco cachet literário – o terror. Dito isto, o problema não é dele, é da falta de curiosidade e de jogo de cintura de quem nega à partida uma ciência que desconhece, e que é a do entretenimento de massas e das livrarias de aeroporto.

“Castle Rock”, uma série já disponível em streaming via Hulu, deverá encher as medidas de fãs e não fãs de Stephen King. “Best seller” desde os anos 70, desde “Carrie” – o seu primeiro livro e logo na altura adaptado ao cinema por Brian DePalma -, King tem o nome na capa de 60 romances, entre eles os “Dark Tower”, “Green Mile”, “Insomnia”, “Misery”, “It”, “Christine”, “The Dead Zone” e “The Shining”. Quem não leu, pelo menos viu os filmes. E, agora, não pode perder “Castle Rock” – a série, de dez episódios, foi lançada no Hulu a 26 de Julho e por lá vai continuar.

Uma nova história familiar
A história, sem nos descairmos com “spoilers”, tem no centro Henry Deaver (Andre Holland), um advogado texano que volta a Castle Rock, onde nasceu, em resposta a um pedido de ajuda de autor incógnito.

No regresso, encontra um conjunto de figuras do passado, a começar pela sua mãe, Ruth (Sissy Spacek, a Carrie dos anos 70 no filme de DePalma); pelo namorado intermitente dela, que, de vez em quando, dorme lá em casa, Alan Pangborn (Scott Glenn); por uma antiga vizinha, Molly Strand (Melanie Lynskey); e por mais um friso de personagens locais que de uma maneira ou de outra fazem parte da missão e das movimentações de Henry.

Para apreciadores de King e mais além
Produzida por J. J. Abrams (“Missão Impossível”, “Guerra das Estrelas” e “Star Trek”, isto no cinema, como produtor ou realizador; ao que acresce, na televisão, uma lista de êxitos que começou com “Lost”) e escrita por Sam Shaw e Dustin Thomason, “Castle Rock” é para apreciadores de Stephen King mas vai para além disso.

Não é apenas para os picuinhas das referências aos livros, que estão por toda a série, mas muito simplesmente para quem procura personagens bem construídas, com biografias e motivações sugestivas, e integradas numa história que nos deixa sempre mais curiosos e num ambiente de onde não queremos sair.

Para os fãs de King, “Castle Rock” tem um lado de caça ao tesouro que os tranquiliza quanto ao seu estatuto de conhecedores. Mas para os espectadores atentos, sejam ou não membros do clube, tem uma coisa melhor – uma história de terror que é também uma peça dramática de primeira água. Mesmo para o leitor antigo, o tom geral é não de nostalgia mas de um passado que pesa, que é a causa incerta e sinistra dos mistérios de Castle Rock, a cidade.

Contra o “déjà vu”, marchar, marchar
“Castle Rock” é, ao mesmo tempo, uma memória descritiva do ecossistema completo de King e um mundo inteiramente novo, concebido para um meio específico, a televisão. Mais exactamente, para o ritmo e os hábitos de consumo da televisão por assinatura – um serviço em que o impulso do “page turning”, de saber o que vem aí, pode ter gratificação imediata. Em que o visionamento contínuo e compulsivo dos capítulos é o objectivo último e, por isso mesmo, o grande inimigo é o “déjà vu”.

Para mais, sendo King o pai de criações e atmosferas que entraram no inconsciente colectivo da ficção de terror, o que torna ainda mais difícil produzir uma impressão geral de frescura e originalidade – que é um dos sucessos de “Castle Rock”.

O passado como novidade
Apesar de o universo de King estar recheado de momentos inconfundíveis e com um vasto “stock” de personagens, situações e cenários que podem ser continuamente reciclados em sustos-padrão, o que conta em “Castle Rock” é a descoberta e a surpresa. As angústias, as dúvidas, os saltos aparecem sempre como novidades, como lances inesperados. Em matéria dramática, aqui, e ao contrário do que dizem os prospectos das aplicações financeiras dos bancos, rentabilidades passadas garantem rentabilidades futuras.

A banda sonora contém títulos como “24 Hours from Tulsa”, de Gene Pitney, e “Clap Hands”, de Tom Waits, o que acrescenta à conclusão final de estarmos na presença de uma série indispensável.

 

Da edição nº 4 do Dia 15

Mais Notícias
Comentários