Trabalhar muito ou trabalhar bem?

De acordo com os últimos dados da OCDE divulgados pela imprensa nacional, Portugal continua a ser um dos países onde se trabalha semanalmente mais horas sem que isso nos coloque no topo dos países mais produtivos.

De acordo com o estudo, Portugal ocupa um não particularmente honroso 26.º lugar (em 35 possíveis) com uma média de 35,9 horas trabalhadas por semana. Este número pode não parecer muito alto, mas chega a ser quase 27 por cento superior às de um dos países mais produtivos.

A conclusão a retirar destes dados não é novidade, mas não é, por isso, menos dantesca. Os trabalhadores portugueses trabalham mais (horas) que os congéneres da OCDE, mas isso não os torna mais produtivos. Porquê?

O modelo de trabalho típico passa por contratar um trabalhador (e usemos a palavra trabalhador em sentido lato porque há muitos “profissionais liberais” a quem isto também se aplica) em função não dos objetivos que será chamado a cumprir, ou das metas que deve atingir em benefício da sua empresa, mas em função do tempo de trabalho que vai gastar na empresa a desempenhar a sucessão das tarefas que lhe são distribuídas. Ou seja, o trabalhador ganha em função das horas a que entra na empresa para trabalhar até que se vai embora – mesmo que não esteja a ser particularmente produtivo – e não do resultado efectivo do seu trabalho.

E, mesmo que não haja horários de trabalho, a métrica muitas vezes utilizada baseia-se igualmente nas horas de dedicação ao trabalho e não no que se produziu durante as ditas. Claro que há margem para os bónus de desempenho ou produtividade ou para mecanismos complementares de remuneração assentes noutros critérios que não o número de horas de trabalho, mas, a existirem, esses mecanismos serão isso mesmo: complementares.

Este ano, a Perpetual Guardian, uma empresa neozelandesa de gestão de activos, decidiu fazer uma experiência e instituir uma semana de trabalho de cinco dias pagos mas em que os trabalhadores apenas trabalhavam quatro dias (32 horas). A empresa foi clara nas suas intenções: o dia extra de folga seria retirado se as equipas não cumprissem os objetivos propostos.

Havendo sempre alguma necessidade de adaptação (dos trabalhadores e dos chefes de equipa), os resultados, devidamente auditados pela Universidade de Auckland e disponíveis online para quem os queira consultar, foram surpreendentes. A empresa não só registou o cumprimento dos objectivos como, em alguns casos, um aumento da produtividade – e, no geral, maiores níveis de compromisso, energia e solidariedade das equipas e dos trabalhadores. Estes reportaram uma significativa diminuição dos níveis de stress e um aumento da concentração nas tarefas a desempenhar e melhor conciliação da vida pessoa e familiar com o trabalho. O segredo? Aparentemente, ficaram mais eficientes.

Claro que cada caso é um caso e nem todas as funções são iguais. Mas talvez o nosso modelo de tempo de trabalho esteja desactualizado e hoje já não faça assim tanto sentido falar em semanas de 40 horas (ou de 35 horas) – mas sim que haja uma ponderada definição da estratégia da empresa, de objectivos (razoáveis!) a alcançar e uma remuneração em função dos resultados. Trabalhar um número excessivo de horas só porque sim não faz particularmente bem à saúde, à vida familiar e ao desenvolvimento pessoal. E, dizem os números, também não parece não fazer particularmente bem aos resultados das empresas portuguesas.

Da edição nº 5 do Dia 15

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