Traço largo

É-me impossível não me revoltar contra quem exibe brandos costumes aos de fora e guarda a selvajaria para a própria casa.

O rapaz dos extintores tem pouco mais de vinte anos mas muitas mais tatuagens a cobrir-lhe o corpo franzino, diria que vítima de um impiedoso raquitismo na infância. E só falo do espaço visível, porque, pela amostra dos braços e das pernas que sobram dos calções desengonçados, adivinham-se muitas outras figuras tenebrosas, cravadas a tinta preta pela geografia oculta do corpo. Podia ser um mitra da Zona Jota ou da Cova da Moura, daqueles que olhamos de revés e nos fazem agarrar os pertences com mais força quando passam por nós numa rua menos iluminada. Mas naquele emaranhado negro de caveiras, ossos cruzados e punhos ameaçadores, há uma única tatuagem colorida, insólita no seu gritante contraste com as outras: na parte lateral do pescoço destaca-se uma boca vermelha, carnuda, como se uma vamp de Hollywood dos anos 50 tivesse deixado ali a marca de um beijo indiscreto, desenhado a batom. Aquela nota dissonante tem em mim, por qualquer razão desconhecida, um efeito apaziguador. Talvez por ser pacífica, cómica até, porque muda  de expressão de cada vez que ele mexe a cabeça.

Tem um olhar tímido que não condiz com as imagens tatuadas nem com o preto integral da roupa. E depressa descubro que é também bem educado e respeitoso. O verso e o reverso, a cara e a coroa, a perpétua interrogação da natureza humana. Engulo a lição com o preconceito, descontraio. Ele também. É meticuloso e tem brio no seu trabalho, faz questão de desempenhar o melhor que sabe as funções que a vida, não a sua vontade, lhe atribuiu. Por consideração a ele, por esse brio profissional, obrigo-me a prestar atenção à longa e desinteressante explicação técnica sobre a composição e manutenção de um extintor. Sei que numa situação de emergência me bastará seguir os dois ou três gestos simples que estão bem explícitos na sinalética do aparelho.

Mas de repente, percebendo em mim uma boa ouvinte, começa a contar-me coisas da sua vida. Chama-se Flávio e mora no Seixal com a mãe e os seis irmãos. O pai fugiu há anos de casa e deixou-os sozinhos, «mas ainda bem, sabe, muitas vezes pensei que a minha mãe morria às mãos dele quando chegava bêbado e lhe dava tareias que a senhora nem imagina.» É-me impossível não pensar nas dezoito mulheres que, só este ano, já foram mortas em Portugal por maridos e companheiros, muitas delas depois de uma vida inteira de maus tratos. É-me impossível não me revoltar com um país que não cuida de ter mecanismos eficazes que protejam as vítimas de violência doméstica e se limita a meter na prisão os seus algozes, quando já nada mais há a fazer. Não me revoltar com um povo que exibe brandos costumes aos de fora e guarda toda a sua selvajaria, cobardemente, para dentro das quatro paredes da sua própria casa.

Volto à terra. Pouco habituado a que lhe dêem atenção e muito menos conversa, já perdeu toda a timidez e agora conta-me que o seu sonho de sempre, mesmo, mesmo, era estudar arqueologia marinha para descobrir tesouros em velhos galeões afundados. Os olhos iluminam-se-lhe ao falar nisso. «Vejo todos os documentários na televisão, aquilo é que é uma vida brutal! E olhe que eu conseguia fazer o curso, era bom aluno e tudo. Mas não deu, pronto.» Não há lamento nem revolta nas suas palavras, apenas a constatação de uma realidade que lhe calhou em sorte. É o filho mais velho, teve de largar os estudos e trabalhar para ajudar a mãe a pôr comida na mesa. «O que eu quero agora é que os meus irmãos estudem e se façam gente, se não ainda acabam nas drogas e a minha mãe já sofreu muito.» E remata, surpreendentemente filósofo, «Veja lá a senhora o que a vida faz: o que eu queria era viver na água e afinal vim parar ao fogo. Não é uma coisa para a gente ficar a pensar?» Enternece-me o sorriso triste mas já mais solto, mais confiante, enternece-me a delicadeza dos sentimentos e das palavras. Flávio é, afinal, um rapazinho doce e cheio de sonhos num corpo de delinquente. Um rapazinho como tantos outros que vivem num país que lhes nega a oportunidade que mereciam.

Um dia, digo-lhe já à porta, ainda te vou ver num desses documentários, de escafandro e barbatanas, a procurar tesouros. Nunca é tarde para estudar, ouviste? Pensa nisso. Volta a cabeça para responder, sorridente, «Não me vou esquecer. Um dia, sei lá. Então uma boa semana, gostei muito de conversar com a senhora.» E a boca tatuada, com o movimento do pescoço, contorce-se numa espécie de beicinho.

Da edição nº 5 do Dia 15

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